segunda-feira, 20 de junho de 2011

"O PARAENSE", 1º JORNAL A SER IMPRESSO NO PARÁ E NA AMAZÔNIA




              Por Nilson Montoril

                                                                                                        
Praça Felipe Patroni, ex-largo de São João, em Belém.
                       A partir de janeiro de 1821, começou a circular em Belém o jornal “Gazeta do Pará”, editado e impresso em Lisboa. A linha editorial era totalmente favorável aos governantes. Em 28 de maio de 1821, a cidade de Belém passava a contar com o funcionamento de uma oficina gráfica em condições de imprimir documentos. A comunicação foi levada ao conhecimento do governo da então Província do Pará por seu proprietário, senhor João Francisco Madureira, que chegou a mostrar aos integrantes da Junta Governativa uma página impressa para comprovar a qualidade do trabalho que se propunha a realizar. Entretanto, o primeiro jornal impresso na capital paraense não saiu dessa oficina, mas de outra gráfica cujo maquinário fora trazido de Lisboa pelos sócios, Felipe Patroni, Daniel Garção de Melo e alferes Domingos Simões da Cunha. O objetivo dos três empreendedores era instalar os equipamentos no largo de São João e prestar serviços gráficos ao governo, ao comércio e montar um jornal onde seriam difundidas idéias nativistas. Em 1821, Felipe Patroni foi enviado a Lisboa como representante da Província do Pará. Recebeu a incumbência de apresentar à Regência protestos de obediência do Pará à Constituição portuguesa recentemente adotada e comunicar que a Província do Pará estava sendo governada por uma Junta Governativa aclamada no dia 1º de janeiro do citado ano Ele havia tido vital participação no movimento que gerou tal mudança haja vista que desenvolveu intensa campanha insuflando o povo e os políticos locais a destituírem a Junta empossada no dia 1º de junho de 1920. Por ter praticado seguidos atos desonestos essa junta caiu no descrédito popular. Patroni foi recebido com as honras de praxe, tanto pela Regência como no Parlamento. Em audiência que lhe foi concedida por D. João VI, no dia 22 de novembro de 1821, Felipe Patroni fez uso de uma franqueza contundente ao relatar os problemas que os governantes portugueses causavam ao povo do Pará. As autoridades portuguesas obrigaram-no a interromper seu discurso e determinaram que ele se retirasse imediatamente do paço real. O Felipe Patroni relatou apenas a verdade, doida de ser ouvida. Se tivesse sido bajulador certamente receberia honras e favores. Para Felipe Patroni ficou evidente que a política portuguesa de além mar continuaria a não atender plenamente aos anseios dos brasileiros. De regresso a Belém, Patroni mandou distribuir panfletos de cunho abolicionista, nativista e republicano. Contou na tarefa de espalhar os panfletos com a participação dos irmãos João, Manoel e Julião Fernandes Vasconcelos trazidos por ele ao Brasil. Porém, a identificação dos distribuidores dos panfletos logo foi descoberta, redundando em suas prisões. Patroni, Manoel, João e Julião foram transferidos para o Forte de São Julião, em Lisboa e ali permaneceram encarcerados até serem anistiados no dia 18 de maio de 1822. Nesse momento, o Príncipe Regente D. Pedro já havia decidido permanecer no Brasil e uma intensa campanha pró independência crescia a passos largos. Enquanto aguardava o momento oportuno para voltar ao Pará, Felipe Patroni conheceu José Batista da Silva, popularmente conhecido em Belém como Camecran que se mostrou interessado em comungar com as idéias do abnegado nativista.

                        Em dezembro de 1821, houve eleição em Belém para a formação da Assembléia Legislativa, mas o nome de Felipe Patroni sequer foi lembrado como aspirante a uma das cadeiras disponíveis. Esse fato o deixou profundamente magoado e mais fortalecido quanto à idéia de montar um jornal. Com esse propósito, Felipe Alberto Patroni, Domingos Simões da Cunha, José Batista Camecran e o tipógrafo Daniel Garção de Melo, partidários da mesma intenção, trouxeram de Lisboa uma tipografia sob a denominação de “Imprensa Liberal de Daniel Garção de Melo & Companhia”. O material gráfico era usado e tinha pertencido à Imprensa Nacional de Lisboa.Também colaboraram com o empreendimento Luiz da Gama Laziér e João Antônio  Álvares. Garção de Melo assumiu a função de compositor-tipógrafo, impressor, diretor técnico e gerente da sociedade. Felipe Patroni ficou como redator. A data tida como oficial do lançamento do jornal é 1º de abril de 1822, embora haja quem afirme ter a circulação ocorrida em 22 de maio do citado ano. A gráfica foi instalada na rua que hoje identificada como Tomázia Perdigão, ao lado do Palácio do Governo. 

Rua Tomázia Perdigão,onde funcionou "O Paraense"
O nome do semanário não poderia ser mais expressivo: “O Paraense”. Desde a primeira edição “O Paraense” circulou contendo críticas incisivas aos erros e mazelas cometidos pelos governantes e incitando o povo a exigir respeito e liberdade. Compunham os principais cargos do governo indivíduos de nacionalidade portuguesa que pretendiam manter o Pará atrelado a Portugal caso D.Pedro de Alcântara proclamasse a independência do Brasil. Desde 1621, quando foi criado, o Estado do Maranhão e do Grão Pará era independente do Estado do Brasil e se relacionava diretamente com Lisboa. A autonomia ficou mais evidente a partir de 1751, com a posse de Francisco Xavier de Mendonça Furtado como governador do Estado do Pará e Maranhão. A sede do estado, antes instalada em São Luiz, passou a ser Belém. Com a vinda da Corte para o Brasil, em 1808,os portugueses dominaram com mais abrangência a gestão pública na Província do Pará e as atividades mais rentáveis economicamente. O surgimento do jornal “O Paraense” incomodou em demasia os lusitanos, haja vista que o sentimento nativista paraense ganhou maior ímpeto. Para evitar que o jornal continuasse a circular, o Comandante das Armas, brigadeiro José Maria Moura, intimou o alferes Domingos Simões da Cunha a recrudescer as críticas e a retirar da sociedade jornalística seu capital investido, fazendo-o não em forma de dinheiro e sim em tipos e outros materiais que impedissem o periódico de ser editado semanalmente. Também foi concedida ao aludido militar uma promoção. Ainda a mando do brigadeiro, Simões conseguiu convencer o tipógrafo Daniel Garção a agir da mesma forma. Tudo indicava que “O Paraense” deixasse de existir. Entretanto, para surpresa geral dos governantes, as edições semanais do jornal saíram normalmente graças à colaboração do professor primário Antônio Ferreira Dias Portugal que era tipógrafo. O brigadeiro Moura mandou alguns soldados atacarem e destruírem a gráfica, o que não aconteceu porque, avisado pelo Major José de Brito Inglês, Felipe Patroni e José Batista Camecran transferiram a gráfica para outro local. Para se vingar de Patroni, o brigadeiro Moura convence o Corregedor de Justiça de Belém a expedir ordem de prisão contra os proprietários do jornal, sob alegação de que eles não divulgaram o aniversário de D. João VI, Rei de Portugal. Patroni foi preso na gráfica e enjaulado no Forte do Castelo. Ficou à frente do jornal até a 6ª edição. O tipógrafo Antônio Portugal refugiou-se nas matas periféricas a Belém e Camecran se escondeu na casa de amigos. Dessa vez o fim do jornal “O Paraense” parecia um caso consumado. No entanto, o Cônego Batista Campos promoveu o retorno do jornal às ruas. Cautelosamente preparou uma edição que continha o manifesto do Príncipe Pedro de Alcântara, Regente do Reino do Brasil, concitando a união dos brasileiros para a independência do então Reino Unido de Portugal e Algarves. Os portugueses sediados em Belém, partidários da medida que faria o Brasil voltar a ser uma simples colônia lusitana voltaram-se contra o religioso. Como já havia sido brutalmente agredido em outra ocasião, Batista Campos foi se refugiar em Barcarena. Na ausência de Batista Campos o jornal ficou sob a responsabilidade do cônego Silvestre Antunes Pereira da Serra. Em fevereiro de 1823, soldados do governo invadiram a sede do jornal e recolheram o equipamento gráfico. “O Paraense”circulou até a 70ª edição. A contar do dia 1º de abril o governo o utilizou para imprimir o jornal “Luso Paraense”. Quando a Independência do Brasil foi declarada por D. Pedro de Alcântara, os portugueses do governo paraense não a acataram. A adesão só aconteceu oficialmente no dia 15 de agosto de 1823, por força das armas.

                        Felipe Patroni só ganhou a liberdade após a declaração da Independência do Brasil. Julgou que o momento era favorável para concluir o curso de direito que iniciara em 1816, na Universidade de Coimbra. Diplomado bacharel em Direito, Felipe Patroni deixou Lisboa e foi estabelecer escritório de advogacia no Rio de Janeiro. Conhecia como poucos o direito civil e econômico. Além do português, falava o francês, inglês, espanhol, grego, latim, sânscrito e vários dialetos indígenas. As decepções sofridas em Belém tinham sido tão fortes que Patroni não a escolheu para residir imediatamente. Reconhecendo o valor cívico e patriótico de Patroni, D. Pedro I o nomeou Juiz de Fora, com exercício na Comarca de Praia Grande (Niterói). Patroni então voltou a Belém para casar com a prima Maria Ana de Souza Azevedo, sua noiva há 7 anos. Em 1830, atuando em Niterói, Felipe Patroni apresentou os primeiros sintomas de perturbação mental. Em 1842 chegou a ser eleito deputado pelo Pará ao Parlamento Nacional. Porém, após seis dias de atividades o parlamento foi fechado. Ainda em 1842 retornou a Belém, fixando residência no largo de São João, cuja área nos dias atuais corresponde à Praça Felipe Patroni, na Cidade Velha. A mudança não lhe fez bem, haja vista que seus grandes amigos, entre eles o Cônego Batista Campos tinham morrido ou se ausentaram da cidade. Sentindo-se um estranho em sua própria terra, Felipe Patroni vendeu todos os seus bens e foi morar em Lisboa. Ali passou os últimos 18 anos da sua atribulada existência, na companhia da esposa e da sogra, que ficara viúva no dia do casamento de Ana com o destemido paraense. Felipe Patroni nasceu em Acará no ano de 1798 e recebeu na pia batismal o nome de Felipe Alberto Patroni Martins Maciel Parente.(Referências contidas no Livro Vultos Ilustres do Pará, de autoria de Ricardo Borges).                

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