terça-feira, 9 de abril de 2013

FILHOS DA MALÁRIA





        FILHOS DA MALÁRIA

                       Nilson Montoril

Guarda da Malária borrifando o pesticida DDT na parede externa de uma residência. Este tipo de procedimento era visto com muita frequencia nas casas de Macapá e de outras cidades, vilas e povoados da Amazônia. O pesticida composto por dicloro-difenil-tricloroetano era diluido em óleo antes de ser aplicado. Os aplicadores nem sempre eram bem recebidos pelos donos de casas de boa qualidade porque as paredes ficavam embranquecidas.
                        Assim passaram a ser chamados os migrantes nordestinos trazidos para a Amazônia para elevarem a produção da borracha no Brasil. Embora fossem rotulados como Soldados da Borracha, sendo inclusive recrutados pelo Exército Brasileiro para tão importante atividade, acabaram largados nos seringais sem receberem a assistência médica e social devida. Estabelecidos em áreas inóspitas, os soldados da borracha chegavam a passar até seis meses no meio da mata e enfrentaram de peito aberto a malária ou paludismo, que ainda hoje mata mais de 3 milhões de pessoas por ano, uma taxa só comparada com a SIDA/AIDS.Principal parasitose tropical, a malária é uma das mais freqüentes causas de morte de crianças em vários países, principalmente na África. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a malária mata uma criança africana a cada 30 segundos. Quem sobrevive sofre danos cerebrais graves. Malária é termo de origem italiana internacionalizado. Antes dele aplicava-se o termo sezonismo, de sezão. É uma doença infecciosa aguda ou crônica causada pelo protozoário parasita do gênero Plasmodium, transmitida pela picada do mosquito Anopheles fêmea. No século XIX surgiu a expressão paludismo, forma latinizada de paul, palude, com o sofismo ismo.A Anopheles Stephensi é a fêmea do mosquito transmissor da malária.Só ela se alimenta de sangue humano.Os machos vivem da seiva das plantas. Nos dias atuais a malária prepondera na África (menos no norte e na África do Sul), México, Brasil (notadamente na Amazônia e Nordeste), Caribe, Médio Oriente, Ásia Central, sudoeste asiático, Indonésia, Filipinas e sul da China. A doença já existiu na Europa, na região do Mar Mediterrâneo (Portugal, Itália, Espanha, sul da França e Grécia. Nos Estados Unidos atingiu o sul e o oeste. No Brasil, a malária é registrada desde 1587. A partir de 1870, com a exploração da borracha na Região Amazônica, tornou-se um sério problema de saúde pública. Também causou estragos na Baixada Fluminense e no vale do Rio Paraíba. À época, já se fazia uso do quinina, antiinflamatório extraído da casca da cinchona que ainda é usado. Na atualidade há drogas mais eficazes como a quinacrina, cloroquina e primaquina. Em 1940, o Brasil tinha 55 milhões de habitantes e ocorria entre 4 a 8 milhões de casos de malária com cerca de 80 mil mortes.No período 1940-1942, quando se intensificou a batalha da borracha, Brasil e Estados Unidos firmaram uma cooperação para combater a malária. Passou então a ser executado o Plano de Saneamento da Amazônia contando com a atuação de Evandro Chagas, João Barros Barreto e Valério Konder. Decorreu daí a criação do Serviço Especial de Saúde Pública-SESP,que no Amapá iniciou suas atividades no município de Amapá.

Guardas da Malária reunidos na entrada de uma comunidade nordestina antes do inicio dos trabalhos de borrifar o DDT.
Essa importante Fundação Pública atuou de forma meritória até 1973, oportunidade em que praticamente foi desativada. Em 1990, no decorrer do primeiro ano do governo Fernando Collor de Melo o SESP foi extinto e suas atividades, juntamente as que pertenceram à Superintendência Nacional de Campanhas, passaram a compor as competências da Fundação Nacional da Saúde.Em 1947, começou a ser aplicado o DDT, cujo resultado, em 1957, reduziu os casos de malária para apenas 249 mil por ano. No Território do Amapá tinha inicio a 25/3/1945, o inquérito da situação da malária, sob a direção do  sanitarista Guimarães Macedo, do SESP, auxiliado pelos chefes dos Postos Médicos das cidades de Macapá, Amapá, Mazagão e Oiapoque.

O  rótulo de um frasco de DDT, escrito em ingles, evidencia que o produto era importado dos Estados Unidos da América.
Em novembro do mesmo ano teve inicio a aplicação de DDT, o inseticida que causou sensação absoluta na última guerra mundial. Desde março de 1947, a pentaquina, um novo produto de combate à malária estava em uso no Brasil a partir do eixo Rio de Janeiro-São Paulo de forma experimental. O DDT (dicloro-difenil-tricloroetano) é o primeiro pesticida usado após a II Guerra Mundial para combater os mosquitos vetores da malária e do tifo. O químico suíço Paul Hermann Muller descobriu suas propriedades contra vários antrópodes em 1939, porém o produto tinha sido sintetizado no ano de 1874. Pela valiosa contribuição ao combate à malária, Paul Hermann Muller recebeu, em 1948, o Prêmio Nobel. O DDT, pó insolúvel em água, mas solúvel em óleo e gordura ainda é considerado bastante eficaz, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde. Na década de 1970, ele foi banido em diversos países. O Brasil só deixou de usá-lo em 2009, por força da Lei nº 11.936 de 14 de maio do ano em referência.

O trabalho dos Guardas da Malária exigia resistência física e perseverância. Eles caminhavam bastante e nem sempre usavam as mascaras que deveriam protejê-los do pesticida.
 A Batalha da Borracha deslocou para a Amazônia cerca de 60 mil nordestinos, simples retirantes que sonhavam em obter um padrão de vida melhor do que tinham no berço natal. No período da II Guerra Mundial o Brasil estava sob o regime ditatorial denominado Estado Novo, cujo presidente era Getúlio Dorneles Vargas. Na época um único ministério reunia as atividades próprias da educação e da saúde. Somente em 1953 foi criado o Ministério da Saúde. Em 1956, surgiu o Departamento Nacional de Endemias Rurais-DENERU, para organizar e executar os serviços de investigação e de combate à malária, leishmaniose, doença de chagas, peste, brucelose, febre amarela e outras endemias. 

O atendimento dos ribeirinhos amazõnidas era feito pelos sanitaristas que viajavam em pequenas embarcações motorizadas. Por precausão, os embarcadiços levavam remos de faia, que eram usados sempre que o "motor dava prego".
Em sete de abril de 1987, quando o atual senador pelo Amapá José Sarney exercia o cargo de presidente da República do Brasil, foi editado o Decreto nº 94.196, instituindo no âmbito do Ministério da Saúde a Campanha Nacional de Combate á Malária, com a finalidade de promover em todo o território nacional, atividades públicas e privadas visando a erradicação da malária no País. Em decorrência da vigência da Constituição da República Federativa do Brasil ocorrida a partir de cinco de outubro de 1988, deu-se a revogação do citado ato administrativo pelo Decreto nº 96.498/1988. Mais da metade dos soldados da borracha morreu vitimada pela malária e pela falta de assistência médica que as autoridades lhes prometeram com tanta ênfase. No dia 25 de abril de 2012, ao celebrar o Dia Mundial de Combate á Saúde, a Organização das Nações Unidas lembrou que a malária ainda está presente em 99 nações e que mais de 200 milhões de pessoas adoecem por ano. 

Um Guarda da Malária lança pesticida em uma poça de agua estagnada para eliminar as larvas do mosquito transmissor da malária.

A ONU estima que são necessários sete bilhões de dólares anuais para controlar a malária até 2015. Se isso foi feito, calcula-se que três milhões de vidas poderão ser salvas. E a malária não fustigou apenas os retirantes nordestinos e os demais brasileiros que vieram tentar a fortuna na Amazônia. Muitos cientistas e voluntários que se envolveram no combate à malária desde o inicio do século XX também foram atingidos pela terrível doença. Entre as vítimas desponta o nome de Emilio Goeldi, Diretor do Museu Paraense, forçando-o a retornar para a Suíça, sua terra natal, onde morreu a 22 de março de 1907.

terça-feira, 12 de março de 2013

UM HERÓICO CEARENSE






                                 UM HERÓICO CEARENSE

                                              Nilson Montoril
Os irmãos Montoril. Alexandre é o primeiro à esquerda de quem observa a fotografia.Antônio é o do meio, frente a mesinha do estúdio onde foi feito o flagrante fotográfico. Ao seu lado, em pé, com a mão esquerda no ombro do pai vemos o Rivadávia Montoril. Sentado à esquerda de Antônio está José Pereira Montoril, conhecido no seio da familia como Cazuzinha. O nome Montoril deriva de "Montorio", monte existente na Itália de onde os primeiros membros da família sairam no sentido de Portugal e posteriormente migraram para o Ceará a fim de desenvolverem atividades agrícolas.
                         O titulo deste artigo figurou no jornal Gazeta de Noticias, edição do dia 8 de abril de 1954, autoria do jornalista H. Firmeza, então redator do importante órgão de comunicação social que circulava na capital alencarina, cujo teor transcrevo: “Cada um de nós encontra na vida criaturas boas que tomam um lugar em nosso coração e dele nunca saem, ainda que vivam longe de nossos olhos. Era eu menino (vejam quanto tempo não faz) no interior do Estado, quando foi residir no seio de minha família, como caixeiro viajante da casa comercial de meu pai, um rapazinho de pele clara, cabelos alourados e olhos azuis. Chamava-se Antônio Pereira Montoril. Tinha um caráter dócil e era honestíssimo, trabalhador, atenciosos, afetivo e serviçal. Conquistou logo a estima de todos de nossa família, da qual se tornou um elemento integrante. Todos lhe queriam como se fosse um filho ou irmão. A Amazônia, porém, o atraiu. Era o tempo em que se estabelecera uma forte corrente emigratória. Pessoas que por lá andavam vinham, de tempos em tempos, visitar a sua gente e traziam notícias animadoras dos recursos da vida amazônica, embora a insalubridade do clima e a luta em meio de selvas ainda não desbravadas.Localizou-se ele, já não me lembro por qual razão, em Macapá, no Estado do Pará, onde se dedicou à vida comercial, primeiramente como empregado e, mais tarde, como comerciante de conta própria. Os seus negócios progrediram.Tornou-se dono de barracão e fornecedor de uma numerosa freguesia de seringueiros, o que lhe deu meios para educar filhos adotivos,já que não os tivera do seu sangue. Um acidente casual com arma de fogo privou-o da visão de um dos olhos e, mais tarde,atingido o outro por um glaucoma, veio a cegar completamente.Mas foi nessa fase de cegueira que mais se acentuou a sua energia física e moral.Fez várias viagens ao Sul na tentativa inútil de recobrar a vista, inclusive a Minas Gerais, ao tempo dos célebres milagres do Padre Antônio. O seu espírito não se abatia com o fracasso dos tratamentos e a sua atividade não esmorecia.O seu tacto adquiriu uma acuidade tamanha que lhe permitia locomover-se sozinho. A qualquer hora, na escuridão da noite dos olhos, ia diretamente, dentro do seu estabelecimento ou de sua residência, ao local onde estivesse qualquer objeto de que precisasse, como se transportava a pé, do seu barracão até o ponto do rio em que fundeavam as embarcações. E interessante era que parava precisamente onde terminava a terra e começavam as águas. Nunca se despregou da amizade que o unia a nossa família e a sua presença entre nós, sempre que, embora cego, aqui vinha, era motivo de alegria recíproca. Esse heróico cearense acaba de falecer, segundo carta que recebi de Belém, e nestas linhas deixo consignado o intenso pesar que isto me produziu e a todos os meus. Quero assinalar que poucas pessoas tenho conhecido na minha vida tão boas, tão estimáveis e dignas quanto era Antônio Montoril, cujo nome sempre guardarei na memória e no coração”. 
Antônio Montoril quando de uma viagem que fez a Castanhal, no Estado do Pará, em 1939, onde residia sua irmã Maria Montoril,o cunhado João Pereira de Araújoe as sobrinhas Lourdes,Olga e Juracy. Antônio usava um fato branco de linho e chapeu preto.Aparece na fotografia entre a sobrinha Lourdes Montoril e o cunhado João Lourenço de Araújo.A primeira moça a esqurda da foto é Juracy Montoril que hoje vive em João Pessoa, na Paraiba. Maria Montoril de Araújo, minha avó materna era integrante da Irmandade de São Francisco das Chagas que é o mesmo São Francisco de Assis.Usava cabelos longos, uma espécie de hábito comum aos religiosos e uma espécie de estola em volta do pescoço. Ao seu lado esquerdo aparece minha mãe Olga Montoril de Araújo(vestido claro e cinto preto)

Antônio Pereira Montoril faleceu no dia 2 de março, em sua propriedade denominada "Casa Nova Floresta", situada no Rio Tartaruga, município de Afuá, região que até a criação do Território do Amapá pertenceu ao município paraense de Macapá. Em Nota de Redação, o jornal “AMAPÁ”, edição nº 544, que circulou no dia 17 de junho assim se expressou: “Esta crônica do jornalista H. Firmeza foi divulgada pela “Gazeta de Notícias”,de Fortaleza, a 8 de abril do corrente ano.E hoje, reproduzindo-a, demonstramos o nosso preito da admiração e saudade ao desbravador Antônio Pereira Montoril, que por muitos anos residiu em Macapá, antes do advento territorial, e que bons serviços prestou à nossa terra comum.Nascido a 31 de janeiro de 1880, no interior do Estado do Ceará, esse bandeirante faleceu no dia 2 de março do ano em curso, deixando este mundo com a tranqüilidade que assinala o espírito dos justos. Vale pôr em relevo que a vida de Antônio Montoril decorreu, toda ela, em permanente atmosfera de profícuo e honesto labor, sendo de ressaltar a sua louvável qualidade de dedicado amigo do Amapá, que nunca deixou de colaborar, desinteressadamente, com as iniciativas que visam o progresso desta região”.
Casa Nova Floresta ao tempo em que pertenceu ao coronel José Serafim Gomes Coelho e que foi vendia a Antônio Pereira Montoril. A canoa a vela atracada no porto da propriedade levava o nome do importante politico que foi Intendente de Macapá e era natural do Ceará. O coronel Serafim teve importantissima participação no sucesso comercial dos irmãos Antônio Pereira Montoril  e José Pereira Montoril.
Antônio Pereira Montoril, tio de minha mãe Olga Montoril de Araújo, nasceu a 31 de janeiro de 1880, na cidade de Assaré,distrito do Crato, no Estado do Ceará. Foi o primeiro filho do casal Joaquim Montoril e Luzia Pereira Montoril que também conceberam Maria Pereira Montoril(1881),José Pereira Montoril(1891) e Alexandre Pereira Montoril(1893), esse o mais novo dos rebentos. Como bem frizou H. Firmeza, o cearense Antônio Montoril dedicou-se com afinco ao comércio, tendo trabalhando com o senhor Manuel Firmeza, genitor do jornalistae e foi muito bem sucedido nessa atividade empresarial. Em 1898, Joaquim Montoril veio para a Amazônia e se estabeleceu no Rio Tapajós cortando seringa. Cerca de dois anos depois ele retornou ao Crato e transportou os filhos Antônio e José para Macapá. Com a ajuda financeira do pai e com os recursos que eles mesmos obtinham, Antônio e José montaram casa de comércio, respectivamente no Rio Tartaruga o no Furo Grande. Antônio Pereira Montoril casou com Ana Maria Montoril, mas o casal não teve filhos biológicos. Decidiram pela criação de filhos adotivos: Rivadávia, Capitulina e Maria Mendes. Maria faleceu no lugar Santo Antônio(Antonino) no dia 17 de maio de 1956,onde tia Ana Maria gerenciava um estabelecimento comercial.Maria foi vitima de colapso cardiaco aos 15 anos de idade. Capitulina morreu em Macapá e Rivadávia vive em Belém.   

segunda-feira, 11 de março de 2013

DÁRIO CORDEIRO JASSÉ





                                DÁRIO CORDEIRO JASSÉ

                                                     Nilson Montoril
Primeiro desfile oficial realizado pela Associação de Escoteiros Marcilio Dias. A parada aconteceu na Fazendinha, área onde hoje está instalado o Parque de Exposições. O primeiro escoteiro da coluna do centro, após a Bandeira Nacional é o chefe Dário Cordeiro Jassé.
                         No dia 12/9/1945, ocorria em Macapá a instalação da Associação de Escoteiros Veiga Cabral. A iniciativa contou com o decisivo apoio do governador Janary Gentil Nunes que trouxe de Belém os chefes escoteiros Glicério de Souza Marques, Clodoaldo Carvalho do Nascimento e José Raimundo Barata. Eles não vieram apenas para fundar o escotismo entre nós,mas também desempenharem outras atividades como servidores públicos federais.Quase dois anos depois, no dia 13/7/1947, surgiria a Associação Marcilio Dias, modalidade mar, por iniciativa do professor de educação física e chefe escoteiro Dário Cordeiro Jassé. Nascido em Belém a 18/5/1921, o chefe Jassé era filho de José Jassé e Rita Cordeiro Jassé. Enquanto permaneceu em Belém residiu na Rua dos 48, por trás da Igreja da Santíssima Trindade e na Avenida 25 de setembro, nos fundos do Bosque Rodrigues Alves. Na capital paraense ministrou aulas de educação física em diversos estabelecimentos de ensino e integrou o movimento escoteiro. Convidado para trabalhar em Macapá, Dário Jassé aqui chegou em abril de 1947, sendo lotado na então Divisão de Educação e exercendo a função de Inspetor de Ensino. Fixou residência no bairro do Trem, onde a Prefeitura de Macapá havia concedido à associação que dirigia uma ampla área delimitada pelas Avenidas Cônego Domingos Maltez/Antônio Gonçalves Tocantins e pelas Ruas General Rondon/Eliezer Levy. De imediato foi demarcado um campo de futebol e iniciada a construção de um barracão. As instruções sobre o escotismo eram ministradas no Rivelim da Fortaleza São José.

No pentágono localizado à frente da Fortaleza, o chefe Dário Cordeiro Jasse ministrava os ensinamentos sobre  escotismo aos componentes do Grupo Marcilio Dias. As aulas sempre ocorriam a tarde e atraiam dezenas de curiosos, principalmente crianças.

 Casou com Raimunda Morais e com ela teve os filhos Carlos Fernando, Antônio Mário, Raimundo Sérgio e as filhas Célia e Regina. Em 1953, doente, o chefe Dário Jassé foi internado no Hospital do IPASE, no Rio de Janeiro, onde faleceu a nove de março. Seu corpo foi enterrado no cemitério São João Batista e governo do Amapá arcou com as despesas de seu funeral. Dário Jassé era o Comissário Regional da União dos Escoteiros do Brasil, no Amapá e Clodoaldo Nascimento o subcomissário. No dia 3/4/1953, às 10 horas, o Grupo Marcilio Dias prestou-lhe homenagens na área da entidade que fundara. Houve hasteamento da bandeira nacional e colocação de uma placa homenageando o extinto. O tenente Glicério de Souza Marques teceu breves comentários sobre a vida do Professor Jassé. Compareceram á solenidade: o Dr. Hildemar Pimentel Maia, governador em exercício, Heitor de Azevedo Picanço, presidente da União dos Escoteiros do Brasil - Regional do Amapá, Jacy Barata Jucá, presidente da Associação Marcilio Dias e Clodoaldo Carvalho do Nascimento, Comissário Regional substituto. Cantou-se a canção do silêncio e a valsa da despedida. Jacy Barata Jucá e Heitor Picanço desceraram a placa Dário Jassé com os dizeres: “Marcilio Dias, Campo Escola Dário Jassé”.
Foto da primeira Banda Marcial dos escoteiros do Amapá que puxou o desfile das bandeirantes e escoteiros das modadalidades terra e mar. O primeiro tambor da fila do centro era tocado pelo chefe Glicério de Souza Marques, membro da diretoria da Associação Veiga Cabral.
 Em 1958, o chefe Clodoaldo Nascimento foi ao Rio de Janeiro para providenciar a vinda dos despojos de Dário Jassé para Macapá, fato concretizado dia 17/11/1958, em avião do Lóide Aéreo Nacional. A urna mortuária, contendo na parte superior uma flor de lis, símbolo do escotismo, foi trasladada para a capela de São José, na Fortaleza de Macapá. Á época, ainda se falava na construção de um memorial destinado aos pioneiros da implantação do Território do Amapá e a urna contendo os restos mortais de Dário Jassé seria guardada no citado monumento juntamente com os despojos de Joaquim Caetano da Silva. Com o passar dos anos, muitos mentores da idéia deixaram o Amapá e ela foi fenecendo. Durante muito tempo as urnas de Joaquim Caetano e de Dário Jassé permaneceram na sacristia da capela da Fortaleza. Transferidas para outro edifício do velho forte, elas passaram a figurar como reserva técnica do Museu Histórico Joaquim Caetano da Silva. Atualmente, a urna do patrono do museu está guardada no prédio da antiga Intendência de Macapá. 
Nesta fotografia vemos cinco dos primeiros escoteiros do Território do Amapá. No sentido dos ponteiros do relógio destinguimos na linha de frente os chefes Luciano, Clodoaldo Nascimento e José Raimundo Barata. Na segunda fila estão Pedro Nolasco Monteiro e Expedito Cunha Ferro, o popular "91".
A urna de Dário Jassé permanece como “reserva técnica” e mantida na Fortaleza. Tenho estimulado os filhos do chefe Dário Jassé a requerê-la e sepultá-la em jazigo da família. Isso ainda não aconteceu, mas o artigo que ora publico poderá dirimir algumas dúvidas que os familiares do ilustre chefe escoteiro por acaso ainda conservam. Afirmo com absoluta convicção que os restos mortais contidos na urna que está sendo mantida na Fortaleza são de Dário Cordeiro Jassé. Eu vi a urna chegar a Macapá e acompanhei o féretro até a Fortaleza. Naquele dia 17 de novembro de 1958, eu estava entre os escoteiros macapaenses, pois integrava o Grupo São Jorge. Dentre os pioneiros do escotismo no Amapá, ainda está vivo o chefe Cláudio Carvalho do Nascimento que à época figurava como um dos dirigentes da Associação Veiga Cabral.
Momento em que a carreta que transportava a urna mortuária do chefe Dário Cordeiro Jassé estacionava no pátio central da Fortaleza de Macapá e o chefe Raimundo Façanha direcionava a roda dianteira esquerda do pequeno veículo no sentido da capela de São José. Do lado oposto, entre os escoteiros que empurravam o carro vemos o chefe Luciano. No interior da carreta há dois lobinhos do Grupo Marcilio Dias.O lobinho que está perto do chefe Luciano é o Urivino Bandeira, ainda vivo. Dentre as pessoas que recepcionaram o chefe escoteiro falecido identificamos o senhor Belarmino Paraense de Barros, de roupa branca e o Inspetor da Guarda Territorial  Ítalo Marques Picaço que faz a saudação escoteira. Observe que a urna mortuária estava na carreta e sobre ela foi postada uma flor de lis, o simbolo do escotismo.Esta urna ainda se encontra guardada no interior da Fortaleza.
 O Manoel Ferreira, o popular Biroba, que era um dos chefes dos escoteiros do mar também testemunhou o fato aqui narrado. Os familiares de Dário Cordeiro Jassé precisam ter em mente que “O Escoteiro tem uma só palavra; sua honra vale mais que sua própria vida”. O chefe Clodoaldo Nascimento jamais traria para Macapá os despojos que não pertencessem ao grande amigo falecido na então capital federal. Entretanto, se os familiares de Dário Jassé têm dúvidas de que os restos mortais não são de seu ente querido, que recorram ao exame de DNA.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

BANDA, RÓTULO OFICIAL


           BANDA, RÓTULO OFICIAL

           Por Nilson Montoril  

                                                                                            
Em 1960, na frente da Farmácia São José que pertencia a Francisco Serrano, foi realizada uma "Batalha de Confete". As autoridades se posicionaram em um pequeno palanque erguido  junto a fachada da loja "Magazine", no inicio da  Passagem Carlos Novais, mais conhecida como "Beco do Serrano". A Rua Cândido Mendes ainda não era asfaltada e o povo acompanhava os acontecimentos de modo bem descontraido.Na época ainda não existia o Bloco de Sujos do Amapá Clube.(Poibido copiar a imagem).
                                    
                        O nome do maior bloco de sujos do setentrião brasileiro não foi dado por seus idealizadores e sim por integrantes do governo do Território Federal do Amapá. Aliás, quando o bloco saiu pela primeira vez, na tarde do dia 2 de março de 1965, o fez sem qualquer rótulo. Naquela ocasião, Macapá iria viver o primeiro carnaval após o golpe militar deflagrado no dia 31 de março de 1964. Fazia uma bela tarde de sol e quase não se via pessoas nas ruas. Os macapaenses ainda estavam apreensivos devido às ações repressivas que o Comando Revolucionário havia tomado a partir do dia 12 de maio contra servidores públicos, estudantes, sindicalistas, socialistas e comunitários que exageravam na manifestação de antipatia pelo regime militar então em vigor. No início da noite desta data, havia chegado à Macapá um contingente de soldados do 26º Batalhão de Caçadores, sediado em Belém, comandado pelo Capitão do Exército Francisco Moacir Meyer Fontenelle, com o intuito de anular um motim deflagrado pelo Tenente Uadih Charone envolvendo membros da Guarda Territorial.

Carnavalescos que não deixavam de ir às ruas na terça-feira gorda de carnaval. Os cinco foliões que aparecem na fotografia participaram do Bloco do Amapá Clube em 1967. No sentido horário vemos Altair Cavalcante de Lemos, Agostinho Borges de Alencar, Amujacy Borges de Alencar, José Monteiro Leite, o Lélé e o Andorinha. A idéia de criar o Bloco do Amapá Clube, em 1965, partiu do Amujacy que brincava tocando frigideira.

No mesmo dia foi preso o Presidente da UECSA, José Figueiredo de Souza (Savino) por ter protestado contra a prisão do Tenente Charone, Diretor da Escola Técnica de Comércio do Amapá. A partir da posse do General Luiz Mendes da Silva, verificada dia l5 de maio, as ações dos lideres da revolução militar tornar-se-iam mais drásticas e diversas prisões arbitrárias aconteceram. Entre os cidadãos recolhidos as casamatas da Fortaleza de Macapá estavam o Tenente José Alves Pessoa, o então empresário Jarbas Ferreira Gato, os servidores públicos Amujacy Borges de Alencar e Altair Cavalcante Lemos. Submetidos a um sumário processo de investigação, sofreram punições injustas e descabidas. Apesar de haver muita gente tida como subversiva e agitadora, a ânsia por revanchismo foi relativamente contida por determinação superior.

No ano de 1975, a boneca "Chicona" saiu com as mãos nas cadeiras. No citado ano o "Bloco do Amapá Clube" completou 10 anos de existências, oito deles com o rótulo "A Banda" e saia da sede do alvinegro da Avenida Presidente Vargas. Na largada, pouca gente acompanhava a boneca,mas o contingente de foliões ia crescendo à proporção que o "arrastão do povo" sequenciava seu desfile. Usando bermuda cinza e camisa branca, o Savino caminhava ao lado da Chicona.(Vetada a cópia da imagem).

Há vários anos era hábito funcionar um jogo de cartas na sede do Amapá Clube, principalmente aos domingos. Os jogadores eram quase sempre os mesmos, todos ligados ao alvinegro da Avenida Presidente Vargas. Naquele dia 2 de março de 1965, jogavam baralho: José Figueiredo de Souza, Amujacy Alencar, Tenente José Alves Pessoa, Altair Cavalcante de Lemos, João de Castro Sussuarana (o Sussuarana Gordo), Jarbas Ferreira Gato, Aderbal Rodrigues Lacerda, José Maria Frota, José Tavares de Almeida e Issac Menahem Alcolumbre. A exceção do José Tavares e do Isaac Alcolumbre, os demais eram vistos com reservas pelos revolucionários. Mesmo sabendo que seriam vigiados, os partícipes do carteado decidiram ir às ruas e dar um balão na cidade, ou seja, fazer o percurso que o bloco “A Banda” repete anualmente. O grupo improvisou fantasias e saiu. Nada de anormal aconteceu. Em 1966, a terça-feira gorda caiu dia 22 de março e mais uma vez o “Bloco do Amapá Clube” fez o balão, agora contando com a adesão de outros foliões.

Amujacy Borges de Alencar e Jarbas Ferrera Gato, sócios no "Bar Gato Azul" costumavam passar o carnaval no Rio de Janeiro. Em 1965, Jarbas Gato era o presidente do Amapá Clube e o Amujacy um assiduo frequentador da agremiação alvinegra. A fotografia data de 1963.(Poibido copiar a imagem)

                        O governador Luiz Mendes da Silva tinha como Secretário Geral o economista Roberto Rocha Souza, um elemento repressor e autoritário, que andava pelas repartições públicas e pelas ruas com um rebenque na mão direita, vibrando-o nas botas de equitação que sempre usava. Declarava-se inimigo do Deputado Federal Janary Gentil Nunes e de seus corregionários. Janary Nunes já havia governado o Amapá entre 1944 e 1956, por quase 12 anos. Vencera as eleições de 1962 e reunia amplas condições de repetir o feito em 1966. Se vencesse iria cumprir mais um mandato na Câmara dos Deputados. Hostilizado e discriminado pelo Comando da Revolução, iniciou sua campanha sem a convicção de vitória. Declarava-se governista e membro da Aliança Renovadora Nacional-ARENA, razão pela qual não aceitar uma proposta de filiação que lhe foi formulada pelo Movimento Democrático Brasileiro-MDB. Como arenista, forçou um racha na legenda à qual era filiado e saiu candidato pela ARENA 2 (Aliança Renovadora Nacional). Foi extremamente feliz ao adotar a macha “A Banda”, composta por Chico Buarque de Holanda, vencedora do II Festival de Música Popular, gravada por Nara Leão a quatro de outubro de 1966. Antes disso, música era tocada na Rádio Difusora de Macapá com freqüência. 
Foto tirada com a máquina de Nilson Montoril, em 1994, na sala sa casa da Ana Lúcia, viúva do Job Nogueira.Na oportunidade entrevistei o Claudionor Monteiro Lima, popular Cutião, artesão que deu vida à boneca "Chicona". Cutião havia retornado de Belém, onde fora tratar da própria saúde. Ele dizia estar se sentindo muito bem,mas faleceu pouco tempo depois.(Foto do acervo de Nilson Montoril,sendo proibida a cópia)

A partir do momento que os divulgadores da campanha do Coronel Janary passaram a usá-la, o governo do Território Federal do Amapá proibiu a emissora oficial de executá-la. A marcha não era tocada na emissora oficial, mas podia ser ouvida por quem se dispusesse a freqüentar os comícios do Coronel Janary Gentil Nunes. Eles ficavam apinhados de gente idosa, jovens e até crianças. A maioria dos eleitores era constituída por servidores públicos, pioneiros na instalação do Território do Amapá e estudantes.
                        A 15 de novembro de 1966, Janary Nunes venceu as eleições, obtendo 6.594 votos, contra os 5.812 sufrágios deixados nas urnas a favor do Cabo Alfredo Oliveira, cuja candidatura recebeu o apoio do então governador Luiz Mendes da Silva. Temendo represálias, os Janaristas não puderam comemorar como desejavam. Desde então, passaram a projetar um retumbante arrastão popular, que seria feito no carnaval de 1967. Todas as pessoas que eram vistas com reservas pela ditadura militar, principalmente as que sofreram humilhações e injustiças aderiram o carnaval da vitória, cuja terça-feira gorda caiu no dia 7 de março de 1967. 

A Alice Gorda desfilando na Avenida Fab. Em 1967, ela foi convidada pelo Amujacy Alencar para coordenar o desfile do Bloco do Amapá Clube no carnaval do citado ano.O comando da revolução militar de 31 de março de 1964, acusou Alice de ter organizado um bloco formado por simpatizates políticos de Janary Nunes unicamente para axincalhar com as autoridades territoriais. Nesse ano o bloco alvinegro ganhou o rótulo de "A Banda" dado pelos governistas.

Em todos os quadrantes da cidade o assunto era o “Bloco do Amapá Clube”. A exacerbada propaganda da “Rádio Cipó”, era freqüentemente captada pela Delegacia de Ordem Política e Social – DOPS. Procurando neutralizar a ação dos Janaristas, Governo e Prefeitura organizaram uma programação envolvendo blocos e escolas de samba não aceitando a inscrição de brincantes avulsos ou grupamentos considerados indesejáveis. Acostumado a cobrir seu percurso, o Bloco de Sujos do Amapá Clube não se preocupou em fazer inscrição na Prefeitura de Macapá e decidiu sair para cumprir o que fora planejado. Ao tomar conhecimento de que o pessoal do deputado Janary Gentil Nunes rumava no sentido da Avenida FAB, com intensão de passar na frente do “Palanque Oficial”, as autoridades territoriais determinaram que um forte contingente da Guarda Territorial fosse colocado na Avenida FAB logo após o cruzamento com a Rua Eliezer Levy, para impedir a passagem do arrastão do povo. A ordem transmitida aos policiais tinha o caráter expresso de não deixa “A Banda” passar. 
No carnaval  de 1977, a Boneca Chicona ainda era confeccionada pelo Cutião.Ele contava com a ajuda do Wanderley e do Job. De chapeu cor de rosa, mão esquersa na cintura e btaço direito levantado, Chicona também usava um óculos colorido. Fazendo brinde à boneca, na frenta da casa do casal Job Nogueira e Ana Lúcia aparecem o Savino,Job,Cadico,Wanderley,Bernardo Souza,João Coutinho e Cutião. De joelhos no leito da Rua São José vemos o Penafort.(Reprodução de imagem proibida)

Sem poder evoluir como pretendia “A Banda” enveredou pela Avenida Eliezer Levy e foi se posicionar em frente à sede do Amapá Clube. Grande parte do público que ocupava espaço nas arquibancadas armadas nas laterais da Av. FAB abandonou o local e saiu atrás do bloco rejeitado, Em plena Avenida Presidente Getúlio Vargas o povão dançou a valer. Neste dia, um trecho da bela marchinha foi evidenciado em Macapá: “A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu. A lua branca que vivia escondida surgiu. Minha cidade toda se enfeitou. Pra ver a banda passar cantando coisas de amor”.
                        O General Luiz Mendes da Silva não estava em Macapá e o economista Roberto Rocha Souza exercia interinamente o cargo de governador. Ele foi o idealizador de toda a nefasta tramóia contra os carnavalescos. Em nota divulgada no Jornal Amapá e outros órgãos de imprensa de Belém, o governo amapaense rotulou o bloco de “A Banda”, porque havia uma orquestra postada sobre um caminhão executando a marcha famosa marcha composta por Chico Buarque. A Alice Gorda, gerente de um hotel e fervorosa carnavalesca foi acusada de ser “testa-de-ferro” dos Janaristas na organização do bloco. Ela negou que seus liderados tivessem qualquer pretensão de ferir os princípios democráticos defendidos pela revolução de 31 de março de 1964, e que a organização do bloco comportasse cunho político e “diplomação popular do Coronel Janary Nunes como deputado federal”. 

Mais esguia e elegante, a "Chicona" foi às ruas em 2001.Um grupo de foliões tirou essa fotografia na frente da "prima". A boneca Chicona ainda hoje é abrigada pela Ana Lúcia.(Reprodução de imagem proibida)

Mulher de princípios rígidos, Alice Gorda exigiu direito de resposta junto aos órgãos de imprensa que divulgaram notas acusando-a de agitadora. Sua exigência foi atendida e a paz voltou a reinar no carnaval do Amapá. No dia 20 de abril de 1967, o general Luiz Mendes da Silva foi substituído no governo do Amapá pelo general Ivanhoé Gonçalves Martins. Várias pessoas que antes eram discriminadas por seu antecessor passaram a integrar sua equipe de governo. Ele só não admitia extremismos e paixões políticas, exigindo de seus comandados ampla obediência e isenção nas atividades discriminatórias contra correligionários de adversários políticos. Seu relacionamento com o deputado federal Janary Gentil Nunes foi muito discreto e respeitoso. No carnaval de 1968, presente ao Palanque Oficial, na Avenida FAB, Ivanhoé Gonçalves Martins acompanhou passivamente a passagem do Bloco de Sujos “A Banda” e até recebeu algumas referências elogiosas. Se no carnaval de 1967, os detentores do poder público não deixaram “A Banda” passar em frente ao palanque oficial, nos anos posteriores ela desfilou tranquilamente, da mesma forma como ainda costuma acontecer. Há 48 anos ”A Banda” congrega todos os segmentos da sociedade macapaense e desde 2012, tem o reconhecimento da Assembléia Legislativa como Patrimônio Cultural do Estado do Amapá. O povo humilde da velha “Província dos Tucujú”, que tem espaço cativo no bloco, penhoradamente agradece, principalmente pelo rótulo: “A Banda”.

Posicionados na confluência da Avenida Presidente Vargas com a Rua São José, o Anhanguera, a Chicona e a Iracema aguardam o inicio do desfile de "A Banda", no carnaval de 2002.(Proibido copiar a imagem).

domingo, 10 de fevereiro de 2013

SEU LIMA, DIGNIDADE E SABEDORIA CABOCLA





                                    SEU LIMA, DIGNIDADE E SABEDORIA CABOCLA

                                                                                                    Nilson Montoril

Raimundo Ferreira Lima, o neto Nilson Montoril de Araújo Júnior e o bisneto Lucas Brito de Araújo, filho do Júnior.Foto tirada na garagem da residência do casal Nilson Montoril de Araújo e Rosa Maria Lima de Araújo, em Macapá, em 2009.
                        No período áureo da produção da borracha na Amazônia, que se estendeu até 1910, o cearense Antônio Cavalcante dos Santos deixou sua terra natal para riscar seringueiras nas terras de Gurupá e Mazagão. Em Gurupá conheceu a paraoara Raimunda Ferreira Lima e a tomou por companheira. Pouco tempo depois, a 16 de abril de 1915, nascia o primeiro filho do casal, Raimundo Ferreira Lima. Esta data está registrada no Registro Geral de Raimundo Lima, porém ele costumava comemorar seu aniversário no dia 31 de agosto de 1915, porque este seria o real dia de seu nascimento. Embrenhado nas matas e vivendo em ambiente hostil, Antônio Cavalcante passava a maior parte do tempo ocupado em sua dura atividade, mas no período de inverno quase sempre estava em casa. Depois de ter gerado Raimundo Lima, o cearense e sua consorte colocaram no mundo Manoel Ferreira Lima e Ernestina Ferreira Lima. Os filhos ainda eram crianças quando, por volta de 1922, A malária vitimou o destemido nordestino, deixando Dona Raimunda Lima viúva e seus rebentos órfãos. Como Antônio Cavalcante era freguês do português João de Oliveira, ao qual vendia quase toda sua produção de látex, este mandou buscar Dona Raimunda Lima e os filhos para residirem na localidade de Sossego do Rio Maracá-Mirim, no município paraense de Mazagão, bem em frente da Ilha Pequena, margem esquerda do Rio Amazonas. Neste aprazível lugar o lusitano mantinha uma serraria e uma casa de comércio bem sortida. Dona Raimunda pegou seus “quase nada” e os filhos e tomou o rumo do Sossego. Raimundo Lima tinha apenas sete anos de idade, mas era muito esperto, fato que agradou ao português João de Oliveira. No Sossego, Dona Raimunda passou a realizar serviços domésticos na casa do patrão até arranjar um novo amor e com ele foi viver em outro lugar deixando Raimundo aos cuidados de Dona Doca, esposa de João de Oliveira. Do novo relacionamento nasceu a filha Constância Lima, a irmã mais nova de Raimundo Lima. Esse lusitano havia exercido a atividade de fotógrafo assim que chegou a Amazônia, nome que uma garotinha interiorana não sabia pronunciar corretamente e dizia “Potock”. Assim João Oliveira ficou conhecido na região de Afuá, Mazagão e Gurupá, tanto que nominou seu empreendimento comercial como “Casa Potocka”. Também adicionou a grafia ao seu nome de batismo: João de Oliveira Potocka. Raimundo Lima já estava com 20 anos de idade, em 1935, quando chegou ao Sossego, a senhora Catarina dos Santos Martins, viúva do português Antônio da Silva Martins.
Raimundo Ferreira  Lima e a esposa Anacleta Martins de Lima em frente a "Casa Potocka".


 Esse cidadão veio tentar a vida no Brasil a bordo de um navio que aportou em Manaus, cidade que o abrigou por alguns anos. Depois desceu o Rio Amazonas e pelo canal sul, conhecido como Rio Pará, se estabeleceu em Breves para trabalhar com um conterrâneo luso. Como era amigo de Alexandre Ferreira da Silva, proprietário de um empório comercial no Rio Ipanema, sua família foi por ele amparada. Dona Catarina tinha a companhia do filho Nicolau dos Santos Martin, o mais velho dos rebentos e das filhas Anacleta Martins de Lima, Ester,Emilia e Francisca. Um olhar apaixonado trocado entre Raimundo Lima e Anacleta fez surgir entre os dois um forte sentimento que os levou ao casamento em 1937. Anacleta nasceu dia 26 de abril de 1921, em na cidade de Breves e estava com 16 anos de idade quando contraiu núpcias com Raimundo Lima que transitava pelos 22 anos, sendo, portanto, seis anos mais velho que ela. O casamento os uniu por mais de 76 anos. Da união nasceram: Maria José, Maria de Lourdes, Rosa Maria, Ana Maria, Raimunda, Marinete, Maria Izabel e Antônio Carlos. Casado, Raimundo Lima ganhou o status de “Seu Lima”, o braço direito de João de Oliveira Potock. Eclético, “Seu Lima” assessorava-o no gerenciamento do comércio, da serraria, fabricava pão, caçava,pescava e vendia gêneros de alimentação no garimpo do Rio Vila Nova. Numa das viagens que fez para o garimpo encontrou o garoto Hilário Ribeiro, então com quatro anos de idade, que vivia relegado e doente. Ao retornar para o Sossego levou o pirralho e o criou como filho. Ainda agregou a sua família os sobrinhos Antônio e Nazaré Lima, filhos de seu irmão Manoel Lima.

Fotografia tirada na frente da "Casa Potocka", na localidade de Sossego do Rio Maracá Mirim, municipio de Mazagão. Aparecem no flagrante fotográfico Raimunda, Lourdes, Ana Maria, Anacleta Martins com a filha Izabel no colo,  Raimundo Lima e a garota Regina. Quando a foto foi batida as filhas Maria José e Rosa Maria residiam em Belém com a tia Rosalina Oliveira.
Quando o senhor João de Oliveira Potock adoeceu e precisou tratar-se em Belém, o Sossego só não foi invadido e saqueado por elementos inescrupulosos devido à fibra do “Seu Lima”. Sua atitude lhe valeu várias ameaças de morte que cessaram apenas quando ele foi nomeado para a função de Comissário de Polícia A atividade não lhe dava uma remuneração fixa. A compensação era a utilização de taxas e emolumentos cobrados de terceiros que requeriam licença para realizar festas dançantes e outras atividades obrigadas ao pagamento das citadas tributárias. O valor arrecadado não rendia o suficiente sequer para cobrir as despesas com investidas de ordem policial que “Seu Lima” precisava realizar. Sua vida de viajante a serviço da firma Potock, quase sempre a remo e às vezes pilotando ubás impulsionadas por motores de popa Archimedes de 12 HP e Johnson de 25 HP, neste caso só quando o trecho a ser coberto era mais longo, lhe proporcionou o conhecimento de toda a região entre o rio Matapi e o rio Jary. Ele listava sem vacilar todos os tributários do rio Amazonas, tanto pela margem esquerda como pela direita. Também empreendeu incursões pelas localidades de João da Costa, Capitão e Rio Preto, todas bem produtivas propriedades do pai de criação.
Anacleta Martnis de Lima e Raimundo Ferreira Lima no pátio da casa do genro Nilson Montoril. Á época, o casal morava com a filha Rosa Maria Lima de Araújo.
 Eu conheci o casal Raimundo Lima e Anacleta Martins em 1965, quando comecei a namorar a Rosa Maria, minha esposa, que tinha 17 anos de idade e residia com o casal Sebastião Fernandes de Oliveira e Joaquina Menezes de Oliveira, Dona Quinoca, ao lado da casa de meus pais, em Macapá. Fui ao Sossego pedir autorização de seus genitores para namorá-la e fui muito bem recebido, principalmente por ser filho de Francisco Torquato de Araújo, um grande amigo de João Potock e do próprio casal Raimundo Lima e Dona Anacleta. Tornei-me seu genro em 1972, quando casei com a Rosa. “Seu Lima” era mestre na gapuia, na colocação de malhadeira, no lançamento da tarrafa, no uso da linha de pescar, no arremesso da zagaia, no manejo de cartucheira, na construção de matapi, cacuri e pari, em pilotar canoa a vela e motores de popa, em singrar as águas nas pequenas “montarias” e rústicos cascos.

Comemoração dos 93 anos de vida de Raimundo Ferreira Lima realizada na residência de sua filha Ana Maria. Ele  cortava o singelo bolo de aniversário tendo a rodeá-lo as filhas Rosa ,Lourdes, Izabel, a esposa Anacleta Martins de Lima, o filho Antônio Carlos e a  filha Ana Maria. Em segundo plano aparecem os netos Marcelo e Márcio. De costas, vemos três dos seus 33 bisnetos.
Mesmo tendo uma prole numerosa e enfrentar constantes adversidades, “Seu Lima” soube como obter o sustento de sua família e instruir os filhos. Criava porcos, patos e galinhas que consumia nas ocasiões festivas a quando pesca se tornava difícil, na fase invernosa. Anualmente, eu, Rosa e meus filhos viajávamos até o Sossego a fim de passarmos a Semana Santa e ficávamos abrigados na velha casa do casal, hoje demolida. Em 1994, quando o Sossego já não rendia mais nada comercialmente e os imóveis de valor tinham sido vendidos, Raimundo Lima e Anacleta acataram os reclamos dos filhos e genros e vieram morar em Santana. Por iniciativa dos filhos ele conseguiu uma aposentadoria pelo INSS e ela Dona Anacleta obteve um singelo beneficio previdenciário. A idade avançada de ambos obrigou-os a vir residir em Macapá. Já não podiam morar sozinhos e assim, em sistema de rodízio, coabitaram com os filhos. Uma conversa com meus sogros era o mesmo que ouvir uma aula sobre questões interioranas. Dia 4 de fevereiro de 2013, “Seu Lima” deixou o plano terrestre e partiu para a eternidade. Completaria 98 anos dia 16 de abril. Até o ano de 2010, “Seu Lima” gozou de boa saúde, mas a senilidade é terrível e mina a vida dos humanos. Passou então a enfrentar alguns problemas próprios de quem tem vida longa sem que o organismo se mantenha funcionando cem por cento. Ultimamente, ”Seu Lima” vivia na casa da filha Ana Maria e do genro Luiz Melo e nada lhe faltou até que exalasse o último suspiro.

  Pelo levantamento que fiz, Raimundo Ferreira Lima teve sete filhos biológicos, um adotivo e amparou dois sobrinhos. Seus filhos lhe deram 50 netos. Até o momento em que ocorreu sua morte já haviam nascido 31 bisnetos e duas de suas netas estavam prestes a ter filhos, elevando o número para 33. De quebra, ainda existem dois trinetos. No total, somando filhos, netos, bisnetos e trinetos, a união de Raimundo Lima e Anacleta Martins originou o aparecimento de 93 pessoas. Agregando a quantidade de esposas dos netos e bisnetos, o montante de viventes ultrapassa a casa dos cento e dez. Raimundo Lima sempre se deu muito bem com seus seis genros e duas noras, todos amigos fieis que lhe devotavam a afeição dada a um pai. Conseqüentemente, podemos afirmar que, em linha direta, 101 criaturas constituem a família de “Seu Lima”, hoje desfalcada dele, mas que tem na senhora de Anacleta Martins de Lima, Dona Mulata, sua matriarca. Ostentando 91 anos de idade, Anacleta Martins de Lima alcançará os 92 no vindouro dia 26 de abril e se constitui no centésimo segundo ser de uma família tão extensa. Raimundo Ferreira Lima foi sepultado no Cemitério Nossa Senhora da Conceição, no centro de Macapá, onde também estão enterrados os restos mortais do genro Gregório Godinho Nunes.

Raimundo Ferreira Lima, em 2005, no pátio da casa da filha Rosa Maia e do genro Nilson Montoril de Araújo, em Macapá.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

CLEVELÂNDIA DO NORTE, COLÔNIA AGRÍCOLA E PRESIDIO





        CLEVELÂNDIA DO NORTE, COLÔNIA AGRÍCOLA E PRESIDIO

                                                                Por Nilson Montoril
Vista aérea da atual Colônia Militar do Oiapoque, em Clevelândia do Norte

                        Em 1919, o Senador paraense Justo Chermont fez um incisivo comentário no Congresso Nacional a respeito do abandono em que se encontrava a fronteira do Oiapoque e sugeriu que o governo federal alocasse recursos financeiros no orçamento do Ministério da Agricultura para a fundação de patronatos e colônias agrícolas nas faixas de fronteira do Brasil com os países visinhos. Ao referir-se à fronteira do Oiapoque com Guiana Francesa, Justo Chermont classificou-a como “terra abandonada e sem dono”. Essas colônias deveriam ser compostas por brasileiros, preferencialmente pelos nordestinos que viviam à míngua em suas terras devassadas pela seca. O Congresso Nacional aprovou sua proposição e o Governo da União cuidou para que a máquina administrativa tornasse realidade o que fora sacramentado pelos parlamentares. Dia 12 de março de 1920, foi publicado um ato assinado pelo Ministro da Agricultura instituindo a Comissão Colonizadora do Oiapoque sob a chefia do gaúcho Gentil Tristão Norberto, cidadão que já havia atuado nas terras do atual Estado do Acre e fez parte do grupo liderado por Plácido de Castro. Ele ostentava a patente de coronel do exército defensor do Acre, mas não era militar de carreira. Havia sumido do Acre por volta de 1916, deixando a fama de repressor cruel e pouco confiável. Como a região de fronteira integrava o Estado do Pará, o Ministro da Agricultura encaminhou correspondência ao governo paraense, datada de 10 de abril de 1920, solicitando a indicação do local e a cessão das terras à União a fim de que fossem iniciados os trabalhos de fundação do Centro Agrícola. Ainda em meados de abril, a Comissão Colonizadora seguiu para o rio Oiapoque, iniciando imediatamente suas atividades, procedendo às sondagens e o levantamento da zona cedida pelo governo paraense. No inicio do ano de 1921, teve inicio a implantação da colônia no trecho da margem direita do rio Oiapoque que iniciava na foz do rio Pontanarri e se estendia até a cachoeira da Grande Rocha, a  70 km do Cabo Orange e 15 Km da posição militar de Santo Antônio.
Planta da Colônia Agrícola de Clevelândia do Norte traçada em 1925

 A 7 de abril as obras de edificação tiveram inicio, compreendendo casas de madeira de lei,pintadas a óleo, envidraçadas, bem assoalhadas e tetos capazes de suportar a cobertura com telhas de barro tipo frances. Um prédio de 2 pavimentos para abrigar a administração da colônia, uma escola e um hospital também foram erguidos. Aliás, o Hospital já funcionava desde setembro de 1921, antes da inauguração oficial da colônia, que ocorreu a 5 de maio de 1922. Além dos membros da comissão e trabalhadores das obras, o Hospital já atendia soldados do destacamento de Santo Antônio. A escola iniciou suas atividades no dia 1º de fevereiro de 1922, com 46 alunos matriculados, todos filhos de colonos nordestinos. Á época em que estes fatos ocorreram, a região do Oiapoque pertencia ao Município de Amapá-Montenegro, cujo intendente do era o coronel Júlio Benicio Pontes, conhecido pecuarista amapaense. A assistência religiosa prestada aos residentes em Clevelândia do Norte estava a cargo do padre francês A. Gross, vigário de Saint Georges, na Guiana Francesa. O Comandante da 8ª Região Militar, sediada em Belém, coronel Raimundo Barbosa, visitou as instalações militares de Santo Antônio e a colônia de Clevelândia nos meses de julho e agosto de 1923, ficando surpreso com a bela obra que ali se realizava. De fato, Clevelândia já possui hospital, escola, sede da administração, hospedaria de imigrantes; o posto Rádio-Telegráfico, serraria, Igreja e várias casas particulares. No espaço antes dominado pela mata os colonos cultivavam banana, mandioca, cana, hortaliças, leguminosas e árvores frutíferas. Os lotes ocupados pelos colonos estavam demarcados ao longo de um caminho vicinal com 20 km de extensão.

Sobre uma pedra com formato similar a que existiu na frente de Macapá, foi assentada uma cruz branca.No muro de arrimo, na parte que adentra no rio Oiapoque vemos uma edificação que lembra o frontispicio da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré erguida na cidade de Belém. A frase em branco é basicamente a mesma que esta escrita no Marco Fronteiriço, na orla da cidade de Oiapoque.
 Tudo caminhava dentro dos planos elaborados quando, no dia 26 de dezembro de 1924, o navio “Cuyabá, que o governo brasileiro havia confiscado de uma empresa alemã durante a 1ª Guerra Mundial e incorporado a sua frota mercante, chegou a Clevelândia transportando um grupo de 250 presos políticos e criminosos sentenciados. Feito o transbordo, o “Cuyabá” seguiu para Manaus, retornando no dia 6 de janeiro de 1925, uma 3ª feira, conduzindo 120 presos políticos que haviam participado da revolta que os tenentes da capital amazonense desencadearam para depor o governador Turíbio Meira e implantar um governo socialista, fato ocorrido no dia 23/7 de 1924. O chefe do executivo estava ausente do Brasil e ocupava o cargo o vice-governador Turiano Meira que fugiu pela porta dos fundos do palácio. Os revoltosos pretendiam promover a emancipação dos pobres e cobrar altos impostos aos ricos para atender aos necessitados. O 1º tenente Alfredo Augusto Ribeiro Júnior, líder dos rebeldes que se declarou governador do Amazonas afirmou categoricamente: “Essa gentalha macabra e covarde não deve e não pode permanecer neste solo bendito”. 

O 1º Tenente Alfredo Augusto Ribeiro Júnior, lider da revolta dos tenentes na capital amazonense discurso rodeado por mais de cem mil populares que foram prestar solidariedade aos responsáveis pelo golpe de 23 de julho de 1924.

O povo amazonense foi às ruas comemorar o feito dos revolucionários. Estima-se que mais de cem mil pessoas se concentraram em frente ao Palácio do Governo paro ouvir o discurso inflamado do tenente Ribeiro Júnior. Á época do golpe, Manaus tinha 75.704 habitantes, a maioria desempregada e vivendo abaixo da linha de pobreza absoluta. O funcionalismo estava com seus salários atrasados e os devedores do fisco não pagavam suas dividas. Além disso, a borracha, principal produto de exportação do Estado do Amazonas estava sem preço. Na cidade de Óbidos, vários revoltosos se instalaram na fortaleza local e se mantiveram em prontidão. O comando da sedição criou o “Tributo da Redenção”, com o propósito de confiscar os bens e as contas bancárias dos oligarcas para transformar em pagamento do funcionalismo. A firma inglesa “Manaos Market” que gerenciava o porto e o mercado foi obrigada a pagar o que devia ao estado. Entretanto, no dia alegria deles durou pouco tempo. A 28 de agosto de 1924, o destróier Mato Grosso da Marinha de Guerra  chegou a Manaus e bombardeou as posições dos rebelados.Tropas legalistas fizeram o cerco por terra, dominaram a situação e prenderam os revoltosos. Quando da chegada dos 120 presos amazonenses, Clevelândia do Norte já havia recebido 250 “indesejáveis” provenientes do Rio de Janeiro e São Paulo que ali desembarcaram no dia 26/12 de 1924. Essa leva de prisioneiros fora desterrada para a fronteira norte do Brasil porque participou do levante da guarnição do Forte de Copacabana em 1922 e da sucessão paulista de 1924. Porém, entre eles foram incluídos criminosos comuns sentenciados. O número de desterrados era então da ordem de 370 “indesejáveis” e iria crescer muito mais. Em meados de janeiro de 1925, desembarcaram em Clevelândia mais 577 presos que se encontravam trancafiados na penitenciária de Catanduva, no interior do Estado de São Paulo.

Foto da equipe de governo do Presidente Arthur Bernardes, que vemos sentado na cadeira ao centro da fotografia. No decorrer de sua gestão o Brasil viveu momentos angustiantes decorrentes de seguidas rebeliões. O "Estado de Sitio", dispositivo que já não existe mais na Constituição vigorou e motivou a punição de pessoas consideráveis indesejáveis

 Ainda no decorrer do ano de 1925, viviam em Clevelândia cerca de 1.630 deportados. Criada em 5 de maio de 1922, como Colônia Agrícola do Oiapoque, Clevelândia recebeu os primeiros colonos, a maioria nordestinos, no dia 24 do citado ano e mês. A partir de 1924, a finalidade da colônia foi desvirtuada. Até 1930, Clevelândia foi um presídio político onde os desterrados conviveram permanentemente com a morte devido à insalubridade de alojamentos, alimentação de má qualidade, doenças como malária, beribéri, febres, convulsões, inapetência, inchação dos membros inferiores, precariedade de atendimento médico, diarréia e prostração generalizada. No Hospital Simão Lopes só havia duas seringas de injeção para atender diariamente cerca de 120 indivíduos. A concentração de tanta gente fez rebentar invulgar epidemia de diarréia ceifando a vida de prisioneiros e colonos. Isso fez recrudescer o fluxo migratório e motivou a mudança de inúmeras famílias de colonos para outras localidades livres da doença. A presença de tantos degredados obrigava o governo federal a mandar suprimentos alimentares necessários à sobrevivência deles. A preciosa carga era transportada regularmente por navios que faziam a linha costeira e estendia suas viagens até Manaus. Com a madeira derrubada na limpeza da área destinada ao plantio, construíram um trapiche e ampliaram a serraria. Entre outras espécies de madeira de lei havia o pau-rosa, fato que fez surgir uma usina movida a caldeira para a extração da essência tão apreciada que a árvore contém. Em 1927, Clevelândia do Norte já estava em franca decadência. A opinião pública contestava sua existência e rogava pela extinção do campo de concentração. A presença dos presos condenados de justiça não favorecia a paz necessária aos colonos. Por incrível que pareça, a anistia dos indesejáveis foi concedida no momento em que o Brasil estava dominado pelo clima revolucionário de 1930. Somente dez anos depois é que a direção da antiga Colônia Agrícola de Clevelândia foi passada ao Exército Brasileiro, que ali se instalou a 17 de junho de 1940, com o Pelotão de Fuzileiros Independentes do Oiapoque.

Marco fronteiriço implantado à margem direita do rio Oiapoque, na frenta da cidade de Oiapoque.Nele está contida a inscrição"Aqui Começa o Brasil".No outro lado do rio vemos terras da Guiana Francesa,Departamento Ultramarino da França.
 Livre dos presos políticos e dos condenados de justiça as mudanças em Clevelândia foram ocorrendo progressivamente. No dia 11 de novembro de 1964, o fracassado núcleo agrícola mudou de nome passando à denominação de Colônia Militar do Oiapoque. As prisões de políticos ocorreram em maior escala no decorrer do governo de Arthur Bernardes, principalmente entre 1924 e 1926. No período 1924/1925, de 946 desterrados morreram 492, aproximadamente 52% dos indesejáveis. Na ância de deixar a cidade do Rio de Janeiro livre de elementos problemáticos, a polícia incluía entre os presos políticos os vadios, revoltosos, anarquistas, gatunos, vigarista, sindicalistas, homicidas e abandonados de rua. Cada viagem entre o Rio de Janeiro e Clevelândia durava 15 dias. Os presos eram transportados pelos navios a vapor Cuyabá, Campos e Caxambu. Em algumas oportunidades, à altura da foz do rio Oiapoque ocorria o transbordo dos desterrados para o navio “Oyapoque” que integrava a frota do Serviço de Navegação e Administração dos Portos do Pará, cabendo-lhe deixar os indesejáveis em Clevelândia. Acreditava-se que ninguém conseguiria escapar de Clevelândia do Norte, mas consta que 262 presos conseguiram fazê-lo através da Guiana Francesa. O campo de concentração estava instalado a 15 km do posto militar de Santo Antônio, próximo  a cidade guianesa de Saint George, onde sempre havia alguém disposto a ajudá-los em troca de uma boa recompensa. O primeiro fugitivo foi o pintor e decorador Pedro Aleves Carneiro, evadido no dia 17 de fevereiro de 1925. O nome da localidade situada à margem direita do rio Oiapoque é uma homenagem do governo brasileiro ao presidente dos Estados Unidos da América do Norte, Grover Cleveland que atuou como árbitro nas questões de fronteiras que o Brasil teve com a Guiana Inglesa, atual República da Guiana e com a Argentina, relativa ao território de Palmas em terras do Paraná. A Clevelândia do Sul, que hoje é a sede do município de Clevelândia fica no sudoeste do Estado do Paraná.
Vista aérea da cidade de Clevelândia, no Estado do Paraná

 O município paranaense de Clevelândia foi fundado através da Lei nº 28 de 28 de julho de 1892, bem antes do surgimento da Clevelândia do Norte que se localiza no Rio Oiapoque, fronteira com a Guiana Francesa.  Nesta, encontra-se instalada a base militar da 1ª Companhia de Fuzileiros de Selva do exército brasileiro. Quando o presídio de Clevelândia do Norte foi fechado, os desterrados que sobreviveram a tantos sofrimentos retornaram ao Rio de Janeiro a contar de 7 de fevereiro de 1927. Ainda hoje, em Santo Antônio, existem ruínas de alguns prédios do núcleo inicial de Clevelândia, mas pouca gente sabe disso.