segunda-feira, 19 de março de 2012

BOMFIM SALGADO, REPÓRTER ACIMA DE TUDO

                         
               Nilson Montoril

Bonfim Salgado, participando de um congraçamento dos integrantes do Jornal do Dia, em Macapá. Ao lado de amigos ele  saboreava uma cervejinha. A fotografia foi tirada no dia 2 de janeiro de 2008, época em que o jornalista atuava como articulista do citado órgão de imprensa.(Foto do arquivo do Jornal do Dia)

              O jornalista Bomfim Salgado costumava dizer que um homem de imprensa nunca deve deixar de lado sua condição primordial de reporte. Dizia e cumpria essa máxima com invulgar sagacidade. Fomos contemporâneos como alunos do Colégio Amapaense no inicio da década de 1960, e quase ao mesmo tempo evidenciamos nossas tendências para o jornalismo. Ele participava do movimento estudantil com mais impetuosidade do que eu, tanto que vivia infiltrado entre os que se devotavam às questões políticas, mesmo as de cunho partidário. Bomfim Salgado gostava de comentar tudo o que acontecia no cenário nacional. Para manter-se bem informado sintonizava as poderosas emissoras de rádio do sul do país e lia jornais e revistas que chegavam as suas mãos graças à gentileza de amigos mais abastados. Nascido no município de Amapá, a 29 de novembro de 1948, recebeu o nome cristão de José Antônio Bomfim Salgado, dado pelos pais Benedito Salgado e Antônia Bomfim Salgado. A família mudou-se para Macapá em busca de melhores condições de trabalho para seu Benedito, mecânico de máquinas pesadas, e a fim de favorecer melhor atendimento educacional aos filhos. O ano de 1968 marcou o ingresso do Bonfim Salgado no jornalismo. Ele fez parte da primeira equipe de redatores e noticiaristas da Rádio Educadora São José Ltda., emissora pertencente à Prelazia de Macapá. A partir de 4 de agosto de 1968, data em que a Rádio Educadora entrou no ar em caráter efetivo, o Departamento de Jornalismo contava com a participação de Hélio Penafort, Paulo Oliveira, Bonfim Salgado e Odilardo Lima. O batismo de fogo da reportagem ocorreu no dia 10 de agosto, ocasião em que o Presidente da República, Arthur da Costa e Silva, visitava o Território Federal do Amapá. Tudo saiu a contento. Tendo boa desenvoltura com a escrita e a locução, Bonfim Salgado recebeu a incumbências de apresentar o programa “Fatos Boatos e Vice Versa”, levado ao ar às 13 horas, de segunda a sexta-feira.
Flagrante histórico para o então Território Federal do Amapá, ocorrido no dia 8 de agosto de 1968. Em primeiro plano, de terno preto, vemos o Presidente da República Arthur da Costa e Silva e o Ministro da Marinha, Maximiliano da Fonseca, prestes a lançar uma garrafa de chapagne contra a proa do Iate Marcilio Dias, recem saido de uma reforma no estaleiro territorial. À esquerda do ministro está o general Erneto Gaisel. Entre o presidente e o ministro aparecem Hélio Penafort e Bonfim Salgado, ambos integrantes da equipe de jornalistas da Rádio Educadora São José Ltda.(Fotopublicada pelo Hélio Penafort, recolhida por Nilson Montoril)
                Os deslizes dos governos territorial e municipal eram evidenciados de forma incisiva e o povo tinha voz ativa. Para tentar frear a grande aceitação do programa da RE, o governo contra atacou através da Rádio Difusora de Macapá. Os textos eram produzidos pelo jornalista Alcy Araújo Cavalcante e outros articulistas e lidos com soberba maestria pelo Pedro Silveira. Sem argumentos para contestar o que o Bonfim dizia, chegaram a chamá-lo, no ar, de “Macaco Torrado”. Altivo ele ignorou a ofensa.Ainda em 1968, Bonfim Salgado passou a devotar-se à política partidária, filiando-se a Aliança Renovadora Nacional-Arena, na condição de correligionário do então deputado federal Janary Gentil Nunes. O Território Federal do Amapá era governado pelo General Ivanhoé Gonçalves Martins, que não privilegiou os políticos, mas também não aceitou ações vingativas deles advindas. Contou com a ação do cunhado, coronel Gerson Góes e do diretor da Divisão de Segurança e Guarda, capitão-de-corveta Luiz Gonzaga Vale, para intimidar os cidadãos que ousassem criticar seu governo. Segundo relatos do próprio Bonfim, ele foi detido oito vezes e submetido a cansativos interrogatórios. Em 1970, ano eleitoral, o Amapá viveu momento de incontida rivalidade entre os partidários de Janary Nunes e seus opositores. O Movimento Democrático Brasileiro-MDB deliberou pela formação de uma chapa constituída pelos professores Antônio Cordeiro Pontes e Lucimar Amoras Del Castilho. Os adversários de Janary Nunes diziam que ele relegou o Amapá quando aceitou presidir a Petrobrás e depois foi ser embaixador do Brasil na Turquia. A classe estudantil apoiou maciçamente os candidatos do PMB. Bonfim Salgado permaneceu fiel a Janary Nunes e acreditava que o ex-governador era o único que poderia tornar realizade a mística do Amapá. Bonfim foi um dos coordenadores da campanha de Janary Nunes, ganhando desafetos e ofensores. Consciente de que a vitória de Antônio Pontes geraria um clima político que lhe seria adverso, Bonfim contou com o apoio de seu líder político para ir residir no Rio de Janeiro. Soube aproveitar o tempo que passou na cidade maravilhosa, qualificando-se em Comércio Exterior e militando na imprensa local. Em 1985, após a posse do Dr. Nova da Costa como governador do Amapá, Bonfim Salgado retornou a Macapá, atuando como assessor de imprensa e consultor político. Também participou do governo de João Capiberibe e de Waldez Góes. Sempre foi senhor de si, refutando a condição de integrante da “mídia adestrada”. Quis ser e foi jornalista “free lance”, mesmo aceitando algumas conveniências de seus patronos que não lhe levasse a transgredir seus princípios éticos. Por ter decidido manter ampla liberdade na sua trilha de jornalista, Bomfim nunca foi funcionário público efetivo e sim, em alguns momentos, um empregado público, ocupando cargos comissionados. A Carteira de Trabalho do Bonfim só recebeu o registro de um contrato pouco tempo antes da sua morte.Ele permitiu que isso fosse feito pelo grupo empresarial Pinheiro Borges, ao qual o "Marquês de Bonfá" prestava serviços jornalisticos e de consultoria politica. Até o dia 12/3/2012, suas assas estiveram livres para voar por onde bem entendesse. E ele voou, para a eternidade.

quarta-feira, 14 de março de 2012

APERITIVO CAIMBÉ



Caimbé da espécie Curatella americana, de pequeno porte, comum nos cerrados e lavrados da Amazônia. O aperitivo fabricado pelo senhor Pedro Azevedo Costa era feito com a casca dessa árvore.
                                     
      

                 Na edição número dois (31/3/1945), do Jornal Amapá, impresso pelo governo do Território Federal do Amapá há partir o dia 19 de março de 1945, encontram-se diversas propagandas de estabelecimentos comercias instalados em Macapá e em outras localidades da novel unidade federada. Um anúncio bem simples evidencia que, naquela época, fabricava-se na cidade um aperitivo denominado “CAIMBÉ”, preparado pelo macapaense Pedro Azevedo Costa. O reclame publicitário dizia: “Provem CAIMBÉ, de P. A. Costa. Aperitivo de gosto agradável, barato e inofensivo, licenciado pelo Laboratório Central de Enologia do Rio de Janeiro sob o nº. 00396. À venda na Av. Presidente Vargas, nº. 46. Aceitam-se encomendas de qualquer quantidade”. O senhor Pedro Azevedo Costa, mais conhecido por Perico Costa, integrava uma família tradicional de Macapá, cuja referência maior era o general do Exército e engenheiro militar João Álvares de Azevedo Costa, macapaense que, no inicio de sua carreira, ainda no tempo do II Império do Brasil, fez parte da guarda pessoal do Imperador D. Pedro II.  Perico Costa era proprietário de uma casa comercial de secos e molhados e fabricava o aperitivo em sua residência, um amplo imóvel que figurava como um dos melhores de Macapá. Suas atividades se estendiam de segunda-feira a sábado. Aliás, naquela época havia uma tal “lei seca” que proibia a venda de bebidas alcoólicas aos domingos.Ela vigorou no período de 1939/1945, na chamada Era Vargas, sendo prorrogada até 1951, pelo Decreto-lei nº. 7.604/1945.
Arvore caimbé da espécie coussapoa asperifolia, com até 15 metros de altura, encontrada nos cerrados da Região Centro Oeste do Brasil, notadamente no Estado do Mato Grosso. O exemplar acima não é tão tortuoso como os encontrados nos campos cerrados do Estado do Amapá.

                  O aperitivo Caimbé era preparado com a casca da árvore de igual nome que viceja nos cerrados, cerradões, lavrados e capões. Algumas espécies podem ser encontradas nas várzeas. As folhas têm propriedades medicinais contra artrite, diabetes e pressão alta, O chá das flores atua contra tosse, bronquite e resfriados. A infusão da casca fornece uma bebida eficiente para curar aftas, dores de cabeça e de estômago, resfriados e pulmões. A espécie utilizada no fabrico do aperitivo é da Curatella americana, planta dileciácea da Amazônia, de pequeno porte, de madeira imputrescível, usada em cavernas de canoas, marcenaria e construção civil. A casca é rica em tanino, as folhas são ásperas, usadas como lixas, e os frutos dão uma tinta pardo-escura. A árvore com estas propriedades é encontrada em várias regiões do Brasil com nomes diversos: lixeira, caimbé, cajueiro bravo, cajueiro bravo do campo, cambarba, marajoara, penttiera, sambaiba e sobro.
Galho de um caimbé contendo flores em capitulos e surgimento dos primeiros frutos. O chá das flores atua contra tosse, gripe e resfriado. Dos frutos se retira uma tinta pardo-escura.
               Para colher a casca da árvore caimbé, os empregados de Perico Costa não precisavam andar muito. Em toda a área de campo que circundava a pequena cidade de Macapá os tortuosos caimbés imperavam. Era só usar o terçado e retirar a quantidade de casca necessária. Em seguida ela era macerada à cacete e colocada em tambores com água e açúcar para fermentar. Algum produto químico era adicionado, mas a fórmula nunca foi revelada. Devido à resina de cor amarelo-esverdeada da madeira, o aperitivo ficava amarelo claro. A dosagem alcoólica não era forte, mas os gulosos acabavam ficando embriagados. Quando havia treino dos times de futebol de Macapá, no campo da Praça Capitão Augusto Assis de Vasconcelos, nos dias de semana, a venda do aperitivo aumentava consideravelmente no comércio do Perico Costa. Encerrado o treino e mesmo jogos, os atletas se dirigiam ao ponto de venda do Caimbé para matar a sede. A maioria deles afirmava que o produto tinha efeitos cicatrizantes e ajudava a curar baques, gastrite, arranhões e até unha encravada. O Sr. Walter Batista Nery, que em 1945, integrava o elenco do Amapá Clube, diz que o aperitivo era muito bom, com sabor variando entre o mel e o licor. Perico Costa sempre procurou obedecer à lei que proibia a venda de bebidas alcoólicas aos domingos. Entretanto, em maio de 1945, confiou na suposta discrição do freguês João Evangelista de Almeida e vendeu-lhe um litro de Caimbé num dia de domingo. Nem bem saiu da casa do comerciante, o comprador foi bebericar perto da Divisão de Segurança e Guarda e acabou sendo recolhido aos costumes.
Ramo de uma árvore de Caimbé apresentando folhas novas e flores que gerarão os frutos. O chá das folhas, segundo a medicina caseira, é um santo remédio para artrite, diabétes e pressão alta. Secas, elas servem de lixa.
                  Na edição nº. 6 do Jornal Amapá, que circulou no dia 12 de maio de 1945, o fato ganhou destaque na coluna Registros Policiais: “Vendia Caimbé Durante Lei Seca – Pedro. A. Costa, conhecido fabricante da bebida denominada “Caimbé”, não se conformando com a lei seca, vendeu, em um domingo, um litro dessa aguardente composta a João Evangelista de Almeida. Feita a apreensão da “água que passarinho não bebe” o fabricante vendedor foi obrigado a pagar a multa regulamentar”. Desse dia em diante, Perico Costa não atendeu nem os pedidos especiais que algumas autoridades faziam as escondidas. Quem desejasse ter o aperitivo Caimbé para saboreá-lo aos domingos, em sua residência, tinha que comprá-lo no decorrer da semana. Curioso é que na época já funcionava na esquina da Rua São José com a Avenida Presidente Vargas, o Bar Elite, de João Vieira de Assis, onde a cerveja era servida bem gelada. O Bar Elite também dispunha de outras renomadas bebidas, mas o pessoal preferia mesmo era o aperitivo fabricado por Perico Costa, por ser mais barato.

quinta-feira, 1 de março de 2012

FALECE DO RIO DE JANEIRO AMILCAR PEREIRA

                  
      Por Nilson Montoril


Em primeiro plano visualisamos o Governador Amilcar Pereira e o Padre Vitório Galliani. Em 2º plano vemos o Deputado Coaracy Gentil Monteiro Nunes(à direita do Dr. Amilcar) e o Padre Antônio Cocco( à esquerda do Padre Vitório). O Sr. PauxyGentil Nunes, que então exercia o cargo de Secretário Geral, está perto do irmão Coaracy usando camisa branca. O policial que faz continência é o Maestro Miguel Silva, regente da Banda de Música da Guarda Territorial.

               Faleceu ontem, dia 28 de fevereiro de 2012, às 11h50min, na cidade do Rio de Janeiro, o médico Amílcar da Silva Pereira, o quarto governador do Território Federal do Amapá. Era natural de Bragança, a Pérola do Caeté, no Estado do Pará, onde nasceu no dia 16 de fevereiro de 1919. Seus pais, Antônio Manuel Pereira e Argentina Pinheiro da Silva, deram-lhe todo o apoio necessário para que conseguisse concretizar o sonho de ser médico. Cursou o primário e o ginasial em sua cidade natal, ingressando na Escola de Medicina e Cirurgia do Pará em 1939. Concluiu o curso de medicina em 1945. Para reforçar os recursos financeiros recebidos dos pais, lecionou Ciências Físicas e Naturais no Colégio Progresso Paraense, em Belém até o término do ano letivo de 1945.  Ainda no inicio do ano de 1946, embarcou para Macapá em 15 de fevereiro, ingressando no quadro de funcionários do recém criado Território do Amapá. Ainda era solteiro e aceitou passivamente sua nomeação para o cargo de Diretor do Posto Médico de Oiapoque. Na cidade fronteiriça iniciou suas atividades profissionais e soube enfrentar com muita resignação os problemas naturais de um lugar tão isolado. Em Oiapoque, conheceu a Professora Normalista Oneide Cruz e Silva, com a qual contraiu matrimônio no final do ano de 1947, tendo os filhos Paulo Sérgio e Telma, ambos nascidos no Amapá. Enquanto residiu na cidade do Oiapoque, o Dr. Amílcar Pereira desenvolveu outras atividades para suprir lacunas na administração do município, até mesmo na condição de prefeito em substituição ao Dr. Sérgio Olindense Ferreira.

Solenidade festiva de aniversário do Rotary Clube de Macapá de julho de 1956, dirigida por Jacy Barata Jucá, presidente da instituição. Fazem parte da mesa: Professora Oneide Cruz Pereira, o Governador Amilcar da Silva Pereira e o Secretário Geral do Território,Pauxy Gentil Nunes. Detalhe para o bolo confeitado e para a garrafa do Flip Guaraná, esta à frente do Dr. Amilcar.(Arquivo Nilson Montoril)

             Ao ser transferido para Macapá, passou a exercer a medicina na então Divisão de Saúde, começando como Chefe do Serviço de Pediatria do Hospital Geral de Macapá que havia sido inaugurada há pouco tempo. Era médico pediatra e teve decisiva participação nas atividades da Legião Brasileira de Assistência, destacando-se como Diretor do Posto de Puericultura Iracema Carvão Nunes, então localizado ao lado da residência governamental, na Avenida Cândido Mendes de Almeida. Foi um dos fundadores do Centro de Estudos Dr. Lélio Gonçalves da Silva, que funcionou no próprio Hospital Geral de Macapá e compreendia uma Sociedade Médica do Território do Amapá. Ele, na condição de presidente, o Dr. Mário de Medeiros Barbosa e o Dr.Carlos Asclepíades de Lima constituíram a Comissão Cientifica da entidade Voltou a atuar no magistério lecionando Ciências Físicas e Naturais no Ginásio Amapaense. Também ocupou o cargo de diretor do citado educandário, hoje registrado como Colégio Amapaense. A 16 de maio de 1954, em caráter interino, o Governador Janary Gentil Nunes o guindou à condição de Secretário Geral, substituindo o Dr. Hildemar Pimentel Maia, à época suplente do deputado Coaracy Nunes, mas servidor efetivo do Ministério da Justiça e Negócios Interiores na condição de Promotor Público.

Em solenidade realizada em 1956, o Promotor Público e Suplente de Deputado Federal, Hildemar PImentel Maia faz uso da palavra. Sentado à esquerda do orador, vemos o Governador Amilcar da Silva Pereira. Atrás dele, encostado na janela, vislumbramos a figura do técnico de som da Rádio Difusora de Macapá, Carlos Lins Cortes, popularmente conhecido por Baião Caçula. ( Foto escaneada do livro "Histório do Amapá, da Autonomia Territorial ao Fim do Janarismo-1943-1970"-página 97)

                A Secretaria Geral do Território equivalia a um órgão com ações próprias de vice-governadoria. Sua efetividade ocorreu no dia 1º de julho do mesmo ano. A 2 de fevereiro de 1956, em decorrência da nomeação do Coronel Janary Nunes para o cargo de Presidente da Petrobrás, o Dr. Amílcar da Silva Pereira passou à condição de governador, nomeado pelo Presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira. No decorrer de seu governo tivemos a implantação da Companhia de Eletricidade do Amapá (3/9/1956) e a instalação do Município de Calçoene (25/1/1957), ambos os projetos de autoria deputado Coaracy Nunes. No dia 5 de janeiro de 1957, ocorreu a inauguração do Porto de Santana, estando presente em Macapá o Presidente do Brasil, Dr. Juscelino Kubitschek.Dia 11 de janeiro, Amílcar Pereira testemunhou o primeiro embarque de manganês para o exterior Como um acidente aéreo ocorrido a 21/1/1958, no campo de aviação do povoado Nossa Senhora do Carmo, no Rio Macacoary, ceifou a vida do deputado federal Coaracy Nunes e de seu suplente Hildemar Maia, o Amapá ficou sem representatividade na Câmara Federal. Houve a necessidade de ser feita uma eleição extemporânea a 18 de maio de 1958, para eleger novos parlamentares. O Dr. Amílcar Pereira foi escolhido pela legenda do PSD, tendo o Promotor Público Aurélio Távora Duarte como suplente. Para poder concretizar sua candidatura deixou o cargo de governador.
 O religioso à esquerda é o Bispo Prelado de Macapá, Dom Aristides Piróvano.Ao centro, de camisa branca e falando ao povo vemos o Governador Raul Montero Valdez. O Dr. Amilcar Pereira, de camisa escura exercia o cargo eletivo de Deputado Federal. O menino da foto é Paulo Sérgio, filho do Dr. Amilcar.(Arquivo Nilson Montoril)


               Foi substituído por Pauxy Gentil Nunes, que tomou posse dia 14/2/1958. Os demais partidos não concorreram. À época, o Território Federal do Amapá tinha apenas 3.664 eleitores. Sob forte comoção 3.191 eleitores elegeram a única chapa registrada. Sua posse na Câmara Federal se deu no dia 7/7/1958. O Amapá ficou sem representatividade no Congresso Nacional por quase cinco meses. O Dr. Amílcar Pereira ainda cumpria o restante do mandato de Coaracy Nunes quando participou de nova eleição, levada a efeito no dia 3/10/1958. Desta feita, a chapa do Partido Social Democrático, composta por Amílcar Pereira e Aurélio Buarque teve a concorrência dos candidatos Dalton Cordeiro de Lima e Amaury Guimarães Farias, ambos filiados ao Partido Trabalhista Brasileiro. No decorrer da apuração, os opositores mantiveram a dianteira, mas foram suplantados após a contagem dos votos sufragados nos Municípios de Amapá, Calçoene e Oiapoque. Enquanto Amílcar Pereira desempenhava suas atividades em Brasília, o governador O flagrante é de 1962, feito na cidade de Mazagão.Pauxy Nunes e seus correligionários desencadearam incisiva perseguição aos funcionários partidários do PTB, descontentando o deputado que mantinha relações cordiais com os filiados da aludida agremiação política. Foi por indicação de Amílcar Pereira que a 8 de setembro de 1961, Mário de Medeiros Barbosa e Francisco Torquato de Araújo foram nomeados interinamente para os cargos de Governador e Secretário Geral respectivamente, em substituição a Joaquim Francisco de Moura Cavalcante, que estava do cargo desde o dia 17 de março de 1961. Os dois categorizados servidores permaneceram nos cargos até 21 de outubro, ocasião em que, por intercessão do Dr. Amílcar, saiu a nomeação do Dr. Raul Montero Valdez.  Em outubro de 1962, o coronel Janary Nunes, que já havia deixada a Presidência da Petrobrás e a Embaixada do Brasil na Turquia, decidiu candidatar-se ao cargo de deputado federal pelo Amapá. O carisma do 1º governador do Território fez a diferença e ele superou o Dr. Amílcar Pereira nas urnas, obtendo 6.559 votos contra 4.018 votos do oponente.  Ao encerrar seu mandato, Amílcar Pereira sentiu que era chegado o momento de deixar o Amapá para não sofrer retaliações, haja vista que havia rompido com os Nunes.



O Presidente Juscelino Kubitscheck, usando terno escuro, caminha pela pista que liga o escritório da ICOMI ao porto de embarque de manganês que iria ser inaugurado na manhâ do dia 5/1/1957, em Santana. À sua direita, seguia o Dr. Augusto Antunes e à esquerda o Coronel Janary Gentil Nunes, Presidente da Petrobrás. Um pouca mais á frente vemos o Deputado Federal Coaracy Nunes e o Governador Amilcar da Silva Pereira.(Foto Revista ICOMI Noticias)
              Requereu transferência para o quadro de servidores do Ministério da Saúde e fixou residência no Rio de Janeiro. Durante o governo do Dr. Nova da Costa houve uma tentativa de prover uma visita do Dr. Amílcar Pereira ao Amapá, mas ele não aquiesceu o pedido. Seu filho Paulo César, servidor da Caixa Econômica Federal, esteve em Macapá algumas vezes e narrou a seu pai as modificações que a cidade sofreu. O Dr. Amílcar da Silva Pereira também foi membro do Aéro-Clube de Macapá e do Rotary Clube. Apreciava e estimulava os esportes, principalmente o pedestrianismo e o futebol, modalidades que ele praticou. Era um cidadão livre de vaidades, não promoveu perseguições a funcionários oposicionistas e nem as referendava. Foi  amigo fiel dos que lhe dedicavam amizade sincera.Morreu 12 dias após completar 93 anos de idade. O Amapá lhe deve um tributo.

O Presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira recebe do Presidente da Indústria e Comércio de Minérios S.A-ICOMI, Dr. Augusto Trajano Antunes, uma medalha comemrativa da inauguração do Porto de Santana a 5/1/1957. O Dr. Amilcar da Silva Pereira, Governador do Território Federal do Amapá, ao fundo, testemunha a homenagem prestada ao Chefe da Nação Brasileira.(Foto Nilson Montoril)




quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

PRIMEIRA SELEÇÃO AMAPAENSE DE BASQUETEBOL

Na pista do velho aeroporto da Panair do Brasil, em Macapá, a delegação amapaense de Basquete Juvenil com tripulantes do avião Douglas DC 3, do Correio Aérea Nacional/FAB. Em pé, da esquerda para a direita: Ary Coutinho, Paulo Farias,Uriel Araújo,José Aymoré,Marivaldo Monteiro,Edilson Borges de Oliveira, o comandante e o co-piloto da aeronave, José Maria Souza,José Tavares de Almeida, Antônio Tavernard e o sargento Irineu da Gama Paes.Agachados: Eládio Braga,Leandro Costa, Clóvis Mascarenhas, Antenor Epifânio Martins, Dr. Corinto Silva e Victor Santos(que jogava basquete mais tinha idade acima do permitido).


        Participaram do VII Campeonato Brasileiro de Basquete Juvenil, realizado na quadra da Fênix Caixeiral Cearense, em Fortaleza, em julho de 1954, as equipes representativas de São Paulo, Ceará, Amapá, Pernambuco, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Norte. A delegação do Território Federal do Amapá seguiu para Fortaleza na manhã do dia 11 de julho de 1954, a bordo de um avião DC 3, do Correio Aéreo Nacional, gentilmente cedido pelo Comando da Aeronáutica sediado em Belém, com escalas para reabastecimento em São Luiz e Terezina. Comandava a delegação o macapaense Edílson Borges de Oliveira, Oficial de Gabinete do Governo Territorial, que também jogava futebol pelo Esporte Clube Macapá. Os demais componentes eram: Sargento Irineu da Gama Paes (técnico), Antenor Epifânio Martins (assistente técnico), Corinto Silva (médico), Prof. Gabriel de Almeida Café (representante da imprensa) e os seguintes atletas - Eládio Braga (Amapá), Uriel Araújo (Macapá), José Aymoré (Amapá), Leandro Matos Costa (Amapá), Ary Coutinho (Amapá), José Tavares de Almeida (América), Marivaldo Monteiro (Macapá), Clóvis Mascarenhas (Macapá), Antônio Tavernard (Macapá), Paulo Vinicius Farias (Amapá), José Maria Souza (Macapá). O atleta Lindoval Peres foi convocado e chegou a concentrar na Escola Industrial de Macapá, mas sua genitora não permitiu que ele viajasse devido ao fato do mesmo ser menor de idade. Para poder participar do certame nacional, a recém criada Federação Amapaense de Basquete, cujo presidente era o tenente Glicério de Souza Marques, organizou um torneio relâmpago com a participação do Amapá Clube, Esporte Clube Macapá, América Futebol Clube e Atlético Latitude Zero. O Atlético Latitude Zero sagrou-se campeão e recebeu o troféu denominado “Dr. Hildemar Pimentel Maia”.  Dentre os atletas convocados, que então integravam outras equipes, encontravam-se Paulo Farias e Uriel Araújo que defenderam as briosas cores do Atlético Latitude Zero no torneio. Na capital alencarina a delegação do Amapá ficou hospedada na Escola Industrial do Ceará, realizando seus treinamentos nas quadras do Náutico Atlético Cearense,campeão de 1952, e do Maguary Clube.O Náutico era a base do escrete alencarino.
Primeiro prédio da Fênix Caixeiral Cearense onde foi desdobrada a programação do VII Campeonato Brasileiro de Basquete Juvenil. Na década de 1950, o imóvel foi demolido, surgindo uma edificação mais ampla e elevada que atualmente abriga o Instituto Nacional de Previdência Social/SUS.( www.ceara.pro.br/fortaleza/Predios/dsc-fenix11.htm)

Paulo Farias, hoje residindo em Belém, não lembra com precisão quando o campeonato teve inicio, acreditando que tenha sido no dia 18 de julho, um domingo e concluído dia 23. Os jogos entre as seleções aconteceram no período noturno e o certame de lance livre pela manhã, ambos na quadra do Fênix Caixeiral. No dia 22 de julho de 1954, uma quinta feira, foi realizado o Campeonato Brasileiro Juvenil de Lance Livre e cada delegação inscreveu cinco atletas. A seleção Amapaense foi representada por Paulo Vinicius Farias, Clóvis Mascarenhas, José Maria Souza, Uriel Sales de Araújo e José Tavares de Almeida. Cada atleta teve direito de fazer 20 arremessos. No geral, cada seleção poderia computar 100 pontos. A classificação final foi a seguinte:
Os dois primeiros senhores de terno branco eram desportistas cearenses.Depois deles vemos: Ary Coutinho(ao fundo),Marivaldo Monteiro,José Aymoré,ao fundo o Uriel Araújo, Dr. Corinto Silva, Edilson Borges, representante do governo do Ceará, José Maria Souza,ao fundo desportistas cearense, Leando Matos Costa, Paulo Vinicius Farias Eládio Braga
 1º Lugar - Federação Paulista             2º Lugar – Federação Cearense                                     
    José Carlos Meblinj       19 pontos       Djacir Lima             15  pontos                   
    Waldemar Blaujkauskas 17 pontos       Newton Farias         14  pontos                              
    Pindaro Zebinatti            16 pontos       Nelber Castro         14  pontos                            
    Adalberto Gonçalves      13 pontos       Fernando Pinto        13  pontos
    Luiz Braga                      12 pontos      Antônio Freitas Filho12  pontos
                              Total     77 pontos                         Total     68 pontos                                  

  3º Lugar – Federação Pernambucana  4º Lugar – Federação Metropolitana
  Adalberto Medeiros Júnior 17 pontos      Luiz Liberato Cabral        16 ponto                    
  Zeudo Silva                       16 pontos      Guilherme Severino Júnior 13 pontos
  Giovani Silva                      13 pontos     Almir Barcelar                   13 pontos
  Ruy Oliveira                       11 pontos      José Silva e Silva              12 pontos
  Isac Schcolmik                   10 pontos      Edson Elias dos Santos     10 pontos
                                  Tota   67 pontos                                 Total     64 pontos

 5º Lugar – Federação Mineira               6º Lugar – Federação Amapaense
     Moisés Blás                    14 pontos       Paulo Farias                       18 pontos
     Leonardo Ribeiro            13 pontos      Clóvis Mascarenhas           11 pontos
     Gastão Câmara               13 pontos       José Maria Souza              10 pontos
     Abílio Veiga                    12 pontos       Uriel Araújo                        8 pontos
     Rômulo Costa                 10 pontos       José Tavares de Almeida     6 pontos
                            Total         62 pontos                                Total         53 pontos

          7º- Lugar - Federação do Rio Grande do Norte                                                               
                Roberto Siqueira          13 pontos              
                Jessênio Lima               10 pontos                   
                Moisés M. Filho             8 pontos        
                Edson Carvalho              7 pontos
                José Oliveira                   6 pontos
                                   Total          47 pontos

                                                               Colocação Individual     
                                           
           Campeão – José Carlos Mebling (São Paulo)                                        
           19 pontos- Medalha de Vermiel e Diploma de Honra ao Mérito
                                         
           Vice Campeão - Paulo Vinicius Farias (Amapá)                                                                        
           18 pontos - Medalha de Prata)

           3º Lugar - Adalberto Medeiros (Pernambuco)                                              
           17 pontos ( medalha de bronze)     

                                                 Classificação por Federação
   Federação Mineira de Basquetebol - Medalha Vermeil e Diploma de Honra ao Mérito
   Federação Paulista de Basquete      - Medalha de Prata
   Técnico da Federação Mineira        - Medalha de Vermeil e Diploma de Honra ao Mérito



Em pé: Eládio Braga, Uriel Sales de Aáujo,José Aymoré, Leandro Matos Costa,Ary Coutinho,José Tavares de Almeidae o técnico Irineu da Gama Paz.Agachados: Marivaldo Monteiro,Clóvis Mascarenhas,Antônio Tavernard, Paulo Vinicius Farias e José Maria Souza, o Zezinho.
                O primeiro edificio da Fênix Caixeiral Cearense demorava no Centro Histórico de Fortaleza, à Rua 24 de Maio, na esquina dessa via pública com a Praça José de Alencar. O imóvel foi vendido em 1979, e a instituição mudou-se para a Avenida Imperador, 336, entre as ruas Liberato Barroso e Pedro Pereira, agora identificada como Colégio Fênix Caixeiral. Já não é mais a famosa sociedade beneficente e cultural de outras épocas quando congregava contadores,despachantes da alfandega,corretores,leiroeiros,empregados de bancos e outras classes trabalhadores.Em 1952, o governador do Estado do Ceará era Raul Barbosa. Ele apoiou incondicionalmente a realização do certame que foi organizado pela Confederação Brasileira de Desportos.A Confederação Brasileira de Volei foi fundada a 16 de agosto de 1954.O ex-jogador Denis Rupet Hathaway ocupou a presidência entre 15/3/1955 a 15/2/1957.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

ALICE GORDA, RAINHA MOMA DO AMAPÁ.

                      

        Por Nilson Montoril

Sempre alegre e sorridente, a Rainha Moma do Amapá irradiava simpatia. Sua atuação no carnaval amapaense foi fundamental para a formação de uma geração bastante criativa. Para ela, a maior virtude que uma ser humano pode ter é a amizade cincera e desinteressada. Alice foi fiel a seus amigos,mas a maioria deles lhe virou as costas em momentos criticos.


               No Setentrião do Brasil viveu uma rainha: a maravilhosa Alice Guedes de Azevedo. Seu reino era o império da alegria, da pândega e da roseta. O tributo devido por seus súditos correspondia a um simples sorriso. Sem ter apego a bens materiais, a rainha Alice não tinha fortuna, nem cetro de brilhantes ou coroa de ouro. Em reconhecimento ao amor que ela nutria pelo carnaval, a soberana vontade do povo lhe deu um trono e o direito de ofuscar, por um breve período de tempo, o brilho dos poderosos. Se o seu reino tivesse um primeiro ministro, ele seria o FALCONIERE, o “Cavaleiro do Samba” que assegurou sua sagração como Rainha Moma. Seu fiel escudeiro, O Rei Momo SACACA, preferia chamá-la de Madrinha e jamais pretendeu ser mais importante que ela. Nem o passista campeador “SUCURIJU” se encheu de vaidades ao substituir o Rei Sacaca quando este foi guindado à esfera celeste para alegrar a corte dos Querubins. O quarteto aqui mencionado despontou para a folia carnavalesca no bairro moreno da cidade, onde surgiu triunfante a “Ordem dos Foliões da Orgia e do Samba”, eternizada entre nos como Boêmios do Laguinho. Foi neste reduto onde impera a cor do ébano que a Alice Gorda começou sua jornada carnavalesca na Província dos Tucujú. Cativante e conciliadora, a Rainha Alice Gorda estendeu sua simpatia pelos Cantões Maracatu, Piratão, Piratinha, Cegonhas, Embaixada, Felicidade, Solidariedade, Unidos do Buritizal, Império do Povo, Quilombo dos Palmares, Unidos do Amapá e pelos Condados Reunidos da Liba, da Abloca e da Banda.

Esta fotografia mostra a Alice sem a robustez ecessiva que progressivamente foi limitando sua mobilidade. Porém, mesmo quando enfrentou dificuldades para sair de casa e honrar seus compromissos contou com a colaboração de vários amigos. Como ela não admitia que lideres da Banda barganhassem vantagens para si e familiares foi tida como chata e inoportuna. Por esta razão, acabou ficando à margem da condução do grande arastão do povo.

              Antes de vestir os trajes reais, Alice tinha predileção pela fantasia de ARLEQUIM, evidenciando o vermelho e o branco. Por gostar do branco e do vermelho apaixonou-se pela Escola Acadêmicos do Salgueiro, do Rio de Janeiro. Foi por influência desta entidade carnavalesca carioca que a Escola de Samba Boêmios do Laguinho também se vestiu de alvi-rubro. Com este traje secular brincou descontraidamente enquanto o excesso de peso ainda não havia prejudicado sua mobilidade. Sempre foi apaixonado pelas festas populares que fazem a riqueza folclórica do nosso país. Entretanto, o carnaval, foi o maior encantamento de sua vida. Se não dava para caminhar, a Alice se conformava em ficar sobre o capô do motor de um caminhão ou na carroçaria de uma camionete. Nem tudo foram flores na caminhada de Alice Gorda. Por ter aceitado uma homenagem de Piratas da Batucada, que contou e cantou sua vida na Avenida FAB, ela foi acusada de ter cometido o crime de lesa pátria e traído Boêmios do Laguinho. Triste e decepcionada com a atitude de pessoas que apenas apareciam na associação no período do carnaval, ela bateu em retirada. Em 1967, consciente de que poderia ter dissabores, Alice aceitou ser “testa de ferro” de um bloco de sujos que congregava integrantes do Bloco do Amapá Clube e carnavalescos partidários políticos do Coronel Janary Gentil Nunes, eleito deputado federal em 1966. Se o Amujacy Alencar, o Savino Souza, o Jarbas Gato ou qualquer outro cidadão que participou da campanha do ex-governador tivesse despontado como coordenador do bloco, certamente a Prefeitura Municipal de Macapá não teria aceitado a inscrição requerida para participar da programação oficial. Naquele ano, uma “orquestra” foi colocada na carroçaria de um caminhão para animar os brincantes.



Sentada sobre o capu do motor de um caminhão Ford e reclinada no pára brisa do veículo, a Rainha Moma, com sua fantasia de Arlequim, marcou presença no carnaval de 1977. Contou com a permanente vigilância do Job Nogueira, um dos seus bons amigos. Na carroçaria do caminhão, atrás da Alice, vemos o radialista Arnaldo Araújo, o locutor que a Banda contratou para orientar os brincantes e animá-los.Observem os altofalantes e as caixas de som que então eram usados. Os três personagens deste flagrante já partiram para a eternidade.
              O veiculo fez o mesmo percurso ainda cumprido pela Banda e só começou a tocar a marcha “A Banda”, composta pelo Chico Buarque, com maior ímpeto quando atingiu a Avenida FAB. Imediatamente, os coordenadores do carnaval mandaram os soldados da Guarda Territorial montar uma barreira no esquina da Avenida FAB com a Rua Eliezer Levi para impedir que o bloco passasse em frente ao palanque oficial. Quem usou o termo “Banda” foram as autoridades e não os brincantes ou a imprensa. Alice foi acusada de ter sido conivente com os “bagunceiros e desrespeitadores da ordem”. Jornais de Macapá e de Belém não a pouparam. Braba como ela só, Alice subiu nas tamancas e enfrentou o imbróglio com muita altivez. A maioria dos que a meteu no “foguete sem rabo” se acovardou e sumiu do mapa. No decorrer dos 45 anos em que viveu em Macapá, Alice Gorda promoveu e ajudou a promover as pândegas e as pantomimas carnavalescas. Como o firmamento precisava de uma estrela de primeira grandeza, Alice mudou de endereço, deixando seus súditos conscientes de que apenas a fraternidade é capaz de fazer o carnaval existir. Assim, neste carnaval de 2012, no momento em que as entidades carnavalescas desfilarem no Sambódromo, a atenções de seus integrantes deve estar voltadas para o céu, onde Alice a tudo observa, com um largo sorriso estampado no rosto.Que rufem os tambores! O maravilhoso Reino da Alegria de Alice Gorda está em festa para perpetuar a sua memória.
                                                         
No carnaval de 1998, a Rainha Moma, Alice Gorda, participou do desfile da Banda na carroçaria de uma camionete. Fazia-lhe companhia o Prof. Antônio Munhoz, fantasiado de palhaço e revestido da função de Juiz de Paz. Naquele ano, na esquina da Avenida Feliciano Coelho de Carvalho com a Rua Jovino Albuquerque Dinoá foi realizado o "casamento" da Boneca Chicona com o galante Anhanguera. Alice ainda não apresentava os sintomas da doença que ceifou sua vida .

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

UM FANTÁSTICO GIRO PELO NORDESTE

Por Nilson Montoril

Ribamar Pessoa e Nilson Montoril na Praia do Jacaré, em João Pessoa. Neste logradouro, todos os dias, ao por do sol, um saxofonista toca o Bolero de Ravel a bordo de uma pequena canoa, no Rio Paraiba. A foto foi tirada no domingo, dia 16/1/2011.

        No período de 15 a 21 de janeiro de 2011, estive em João Pessoa, a aprazível capital do Estado da Paraíba. Estava acompanhado de minha esposa Rosa, minha filha Débora, meu genro Ewerton e dos netos Rodrigo e Júlio César. Curtíamos férias, iniciadas em Fortaleza, no dia 6 de janeiro. Às 07h30min horas da manhã do dia 12 tomamos o rumo do sul do Estado de Ceará com destino a Exu, simpática cidade do sertão pernambucano, terra de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Utilizamos um Pick-up Mitsubishi, cabine dupla e, a despeito de duas paradas de média duração, chegamos a Exu às 16h30min. No decorrer da viagem fui relembrando os meus tempos de estudante, apreciando detalhes do relevo nordestinos citados por meus professores de geografia do Colégio Amapaense. Conhecemos o açude Castanhão, uma obra maravilhosa que represa cerca de sete bilhões de metros cúbicos de água e integra o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco. À proporção que nos aproximávamos de Assaré, Crato e do Juazeiro do Norte, meu estado emocional aumentava. Afinal de contas, eu estava prestes a conhecer lugares onde viveram meus antepassados antes de migrarem para a Amazônia a partir de 1898.

Nilson Montoril na entrada do Mausoléu de Luiz Gonzaga.
Na rota para Exu não entramos no Crato, mas passamos pelo trecho da estada que para lá converge. Alguns quilômetros depois dessa entrada vislumbramos a bela Chapada do Araripe. Depois de alcançá-la, iniciamos a subida e trafegamos 26 km por uma estrada pavimentada até o ponto de descida em demanda de Exu. Ficamos hospedados na casa onde reside o casal Edílson Ferreira e Carlena Alencar. Ele oficial reformado do Corpo de Bombeiros do Estado do Amapá. Ela, natural daquela região e integrante da família que tem em Bárbara de Alencar a sua maior referência.

A meu lado, Raimundo Praxedes, vaqueiro do Gonzagão.
Tivemos a feliz oportunidade de visitar o “Parque Asa Branca” que compreende a antiga propriedade de Luiz Gonzaga. Também conhecemos Crato e Juazeiro do Norte, cidades onde ainda moram muitos dos meus parentes, membros das famílias Alencar, Queiroz, Maia, Montoril,Araújo. Em Juazeiro, estivemos no local onde viveu o Padre Cícero Romão Batista e todos os lugares que se referem à fé do povo nordestino por ele. No sábado, por volta da 7h35min tomamos o rumo de João Pessoa. Iríamos percorrer mais de 700 km e tudo transcorreu sem atropelos.

Débora em frente a réplica de uma  "Casa de Reboco"
Chegamos a João Pessoa às 17h40min e nos deparamos com um sério problema: o hotel onde tínhamos feito reservas não honrou com sua palavra. Ainda chegamos a manter contatos com outros estabelecimentos hoteleiros, mas não havia vagas. Chegamos a pensar em emendar caminho para Natal, desistindo de fazê-lo depois que recorremos aos préstimos do casal Ribamar Pessoa e Carmem Nery Pessoa. Pleiteamos apenas um pernoite, mas eles fizeram questão que aceitássemos a hospitalidade pelo tempo que quiséssemos ficar em João Pessoa. Nesta ocasião lembrei de dois velhos ditos populares: “Quem tem padrinho não morre pagão” e “Não fica desamparado quem tem amigo na praça”.
Nilson e Ribamar, este acessando o computador em seu apto.

Domingo, dia 16 de janeiro de 2011, Ribamar, Carmem, eu e Rosa fomos visitar o centro histórico de João Pessoa, a Paia do Jacaré, a Ponta Seixa e outros lugares pitorescos da bela e acolhedora capital paraibana. Fiquei maravilhado com a riqueza arquitetônica da Igreja de São Francisco e do Convento de Santo Antônio, que formam um belo complexo. Em João Pessoa encontramo-nos com o Nilson Montoril Júnior, Anelisa e Lucas. Ainda tivemos tempo para ir a Jacumã, onde revemos Tia Francisca Juracy Montoril Cabral, que até pouco tempo residiu em Itabaiana.

Rosa, Nilson Jr.,Tia Juracy, Nilson,Débora,Rodrigo,Lucas,J.César
Na manhã do dia 18/1/2011, esticamos a viagem a Recife, Porto de Galinhas e Jaboatão do Guararapes, onde pernoitamos.No dia seguinte, 19 de janeiro, às 14 horas, sob pesado temporal deixamos Recife com destino a Natal, no Rio Grande do Norte. À noite, encontramos tempo e disposição para rever alguns pontos marcantes de Natal e jantarmos no restaurante Mangaio. Dia 20, após o café da manhã, tomamos a estrada em direção de Fortaleza, almoçando em Mossoró e parando em Canoa Quebrada para conhecê-la. Em Fortaleza permanecemos até 26 de janeiro de 2011.
Lucas,Riquele,Fernando,Anelisa,Débora,Tia Juracy,NM,Ewerton,Juju.
  Débora, Ewerton, Rodrigo e Júlio César tinham deixado a capital alencarina, por via terrestre, no amanhecer do dia 25 de janeiro, pernoitando em Teresina e chegando a Belém ao anoitecer do dia 26. Eu e Rosa fizemos o trecho Belém/Fortaleza/Belém por via aérea. No final deste ano de 2012, pretendemos seguir outra rota, planejando melhor a questão de hospedagem para não sermos surpreendidos pelo mau caráter de alguns gerentes de hotel. Tia Francisca Juracy Montoril Cabral reside atualmente em João Pessoa e possui um apartamento em Jacumã, cuja praia é bastante procurada pelos turistas.

Carmem Pessoa e Rosa Araújo na Igreja de São Francisco
Ao final deste relato não posso deixar de agradecer o importantíssimo apoio que minha família recebeu dos amigos Ribamar Pessoa e Carmem Nery Pessoa, ilustres proprietários de um belo apartamento no 17º andar de um prédio edificado no bairro Manaíra, em João Pessoa, de cuja sacada vê-se parte do litoral e o Oceano Atlântico, tão grande como os corações que eles carregam em seus peitos. Também merece destaque o acolhimento que recebemos do casal Edilson e Carlena, em Exu, cidade que os abriga há 10 anos e de onde não pretendem sair. Em João Pessoa  contamos com a parceria do botafoguense


Edilson, Carlena e Rosa no entorno da imagem do Pe. Cicero
  Inaldo, paraibano que mora em Macapá e que lá se encontrava em gozo de férias. Não faz muito tempo que Exu viveu momentos de muita discórdia entre as famílias Alencar e Sampaio. Com a intercessão de Luiz Gonzaga e intervenção do Exército a paz foi estabelecida. Tive a oportunidade de passar alguns momentos de descontração numa fazendola de membros da família Alencar e ali encontrar alguns Sampaios que conversavam animadamente. A Serra ou Chapada do Araripe corresponde a um Parque Nacional com variado eco-sistema. A cidade, cujo nome não tem nada a ver com divindade do Candomblé e sim designa a colméia de abelhas,atualmente é abastecida por água transposta do Rio São Francisco. É cortada por uma rodovia que se estende até Petrolina/PE e possui tráfego considerável.


Impressionante imagem de cera que personifica o Padre Cicero Romão Batista repousando em uma rede.A imagem fica isolada em uma sala do Memorial do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte. Tirei a fotografia através da vidraça.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A ELEVAÇÃO DE MACAPÁ À CATEGORIA DE VILA

  Por Nilson Montoril
                 

Foto de 1960, ocasião em que Macapá tinha 202 anos de existência na condição de vila. Para termos uma idéia da área onde foi implantado o povoado, basta imaginar a área sem a Fortaleza de São José. O entorno do platô era exatamente igual em 1751 e 1960, excluindo naturalmente quaisquer outras edificações

                     Na viagem que empreendeu à Capitania de São José do Rio Negro, onde discutiu com os espanhóis sobre as questões de fronteiras entre as possessões de Portugal e da Espanha na América do Sul, o Capitão-General Mendonça Furtado, Governador do Estado do Grão Pará, tomou uma série de medidas administrativas necessárias à formação de vilas e lugares. Antes de aportar em Macapá, Mendonça Furtado parou na aldeia dos índios Urucará, onde o Padre Antônio Vieira havia introduzido índios nhengaibas, perseguidos por escravagistas. No dia 24 de janeiro de 1758, a aldeia Urucará foi elevada à categoria de vila e testemunhou a instalação do Senado da Câmara. A denominação mudou para Portel. A comitiva do governador chegou a Macapá dia 1º de fevereiro e as delineações do espaço que iria abrigar a vila ocorreram imediatamente. Este espaço corresponde as Praças Veiga Cabral (Largo de São Sebastião) e Barão do Rio Branco ( Largo de São José/São João).As denominações dadas aos dois largos traduzem bem a intenção de Mendonça Furtado em homenagear não apenas os santos, mas também seu irmão Sebastião José de Carvalho e Melo e o Rei D. José I. é claro que o delineamento em questão não passou de um simples escolha, sem compreender a limpeza total da área, que por ser de cerrado facilitou a empreitada. No dia dois de fevereiro, a cerimônia de posse dos membros do Senado da Câmara certamente aconteceu no núcleo pioneiro de Macapá. Nela havia instalações diversas e a população ali residia. Devido ao porte que Mendonça Furtado quis dar a Macapá, o Senado da Câmara foi formado por quatro membros: Francisco Espíndola Bittencourt, que exerceria a presidência e seria o Juiz Ordinário; Carlos de Melo, acumulando as funções de Procurador do Executivo e Tesoureiro; Thomé Francisco Vieira e Manoel José Paes como
vogais.
Mulher da Ilha São Jorge, uma das nove ilhas que formam o Arquipélago dos Açores. Da Ilha  São Jorge também vieram pessoas que contribuiram para o povoamento de diversas regiões do Brasil, inclusive Macapá.

                 Todos eram açorianos, brancos e letrados. Finda a cerimônia de posse, a comitiva do governador, acrescida por militares do reduto fortificado e por populares deu vivas ao Rei de Portugal e desejou-lhe longa vida. A ligação entre o platô da fortificação e a área do atual centro histórico era feita através de uma ponte de madeira construída sobre o igarapé do Igapó e por uma estrada aterrada. A abertura de vias públicas data de 1761, correspondendo a nove ruas, nove travessas e passagens, dois largos maiores e um largo menor.

Imagem de Macapá, mostrando em primeiro plano a Igreja de São José, o Senado da Câmara(à esquerda) e a casa Paroquial. Por volta de 1761, o quadro era praticamente este que vemos na fotografia.

                  No dia 4 de fevereiro houve missa campal celebrada pelo bispo Miguel de Bulhões e concelebrada pelo Padre Miguel Ângelo de Morais. Encerrado o ato litúrgico o bispo do Grão-Pará assentou a pedra fundamental da Igreja de São José. A seguir, o Governador Mendonça Furtado convidou o Ouvidor Geral Pascoal Abranches Madeira Fernandes a conduzir o cerimonial que redundaria na declaração de elevação do povoado à categoria de vila, que o fez de maneira formal e marcante, a começar pela ereção do pelourinho, símbolo das franquias municipais. Em Portugal “o pelourinho era um pilar de pedra, de estilo burlesco, mas às vezes formoso. Servia de poste para o condenado receber açoites, como lugar de execução, do qual penduravam o criminoso, ou contra o qual se estrangulava e decapitava.” Na Amazônia bastava um grosseiro tronco de madeira com duas travas cruzadas no topo ou argolas. Aos romanos o denominavam pilori e o tinham como símbolo da autoridade e da justiça. O termo pilori evoluiu para pelouro, que era cada um dos ramos da administração de uma vila ou de uma cidade afeta aos vereadores da Câmara Municipal, onde se reuniam os vogais representantes do povo e entre eles o Juiz Ordinário e o Procurador. A franquia de que desfrutavam as vilas consistia na liberdade e direito de cobras impostos e ministrar a justiça em primeira instância. O vogal era o representante paritário da classe popular e tinha direito a voto. A direção da segunda vila a ser instalada por Mendonça Furtado foi exercida pelo Senado da Câmara, cujo prédio foi construído ao lado direito da Igreja, no espaço que hoje abriga a Biblioteca Estadual Elcy Rodrigues Lacerda.
Vista atual da Fortaleza de São José e do Parque do Forte. O visual mudou profundamente quanto a urbanização da área.

                  Pouco a pouco, a contar de 1761, as casas destinadas aos moradores da vila e os prédios públicos foram sendo construído em taipa-de-mão. A área inicialmente habitada era delimitada pelas ruas Formosa (Cândido Mendes) e da Campina (Tiradentes) e pelas Travessas do Lago (General Gurjão) e da Estrela (Presidente Vargas). Por trás da Igreja de São José, que sempre ficou de frente para a rua São José, passava a rua dos Inocentes, interligando  as travessas do Lago e da Estrela. O largo que demorava após a igreja também ficou rotulado pelo povo como Largo dos Inocentes. Com o passar do tempo, o quadrado compreendido entre a Rua São José, a rua da Campina e as Travessas do Lago e da Estrela tornou-se o ponto mais habitado de Macapá. O povo dizia que ali tinha tanta gente que mais parecia um formigueiro. A expansão no sentido do rio Amazonas ocorreu muito tempo depois. Neste dia 4 de fevereiro de 2012, comemoramos os 254 anos da elevação do povoado de Macapá à categoria de vila. Contando o tempo de povoado,  equivalente a 6 anos, 3 meses e 15 dias aproximadamente, Macapá alcança mais de 260 anos de existência.